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Preso pela PF, empresário chama reunião com vereadores de 'café'

Marcelo Plastino é apontado no pagamento de propina a parlamentares.
Vereador Cícero Gomes recebeu pacote de Plastino; ele nega acusações.


Do G1 Ribeirão e Franca

Em conversas gravadas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, o empresário Marcelo Plastino, preso na Operação Sevandija que apura fraudes de R$ 203 milhões em licitações do governo Dárcy Vera (PSD), agenda encontros com os nove vereadores da base aliada citados no esquema.


Cícero Gomes (PMDB) se encontra em café com o empresário Marcelo Plastino (Foto: Reprodução/EPTV)
Cícero Gomes (PMDB) se encontra em café com o empresário Marcelo Plastino (Foto: Reprodução/EPTV)

O dono da empresa Atmosphera Construções e Empreendimentos, detentora de vários contratos sob suspeita com a Prefeitura de Ribeirão Preto (SP), chama as reuniões de cafezinhos. A PF acredita que a palavra seja uma espécie de código para designar encontros para negociar assuntos políticos e entregar dinheiro de propina.

Assim como o presidente da Câmara, Walter Gomes (PTB), flagrado em um dos 'cafezinhos' recebendo um envelope de Plastino, o vereador Cícero Gomes (PMDB) também teve registrado pela polícia um encontro com o empresário, no café de um shopping.

As imagens feitas no dia 11 de agosto deste ano mostram quando Plastino deixa uma revista com um envelope em cima da cadeira, enquanto aguarda Cícero Gomes. O vereador chega, os dois conversam e Cícero vai embora com o pacote nas mãos.

O vereador confirmou ter encontrado Plastino pelo menos duas vezes, mas nega ter recebido dinheiro do empresário. Segundo Cícero, ele recebeu uma lista com nomes de pessoas que seriam demitidas.

Empresa investigada

 
Segundo a PF e o MP, a Atmosphera Construções e Empreendimentos foi beneficiada em licitações da prefeitura que somam cerca de R$ 26 milhões. A empresa intermediou a contratação de quase 700 funcionários terceirizados para trabalhar em secretarias e empresas públicas.

A Atmosphera e Marcelo Plastino eram usados como instrumentos de compra de apoio político pela prefeitura.

Os vereadores Samuel Zanferdini (PSD), Evaldo Mendonça da Silva, o Giló (PTB), Capela Novas (PPS), Genivaldo Gomes (PSD), Cícero Gomes, José Carlos de Oliveira, o Bebé (PSD), Maurilio Romano (PP), Saulo Rodrigues da Silva, o Pastor Saulo (PRB) e Walter Gomes são suspeitos de indicar quais pessoas deveriam ser admitidas pelas empresas terceirizadas – contratadas pela Companhia de Desenvolvimento Econômico (Coderp) sem licitação – que prestam serviços à Prefeitura. Em troca, ofereciam apoio ao Executivo na Câmara Municipal.

De acordo com o promotor Marcel Bombardi, as pessoas contratadas desta forma seriam, na verdade, cabos eleitorais dos vereadores, custeados com recursos públicos, e a eventual demissão dos mesmos levaria à perda da base de apoio político do Executivo.

Uma das discussões sobre o assunto após votações fracassadas na Câmara em prol do Executivo foi gravada entre a prefeita Dárcy Vera e o secretário de Administração, Marco Antônio dos Santos, considerado pelo MP um dos principais articuladores das fraudes nos órgãos investigados.

Na conversa, Dárcy cobra os votos de Maurilio Romano e Giló, que foram contra um projeto para transferir recursos de um fundo para o Tesouro Municipal.

Cafezinhos com vereadores

 
Por causa das movimentações financeiras atípicas descobertas na conta de Plastino, os investigadores concluíram que há fortes indícios de pagamento de propina a servidores públicos municipais, integrantes da administração e a vereadores.

Em outra conversa gravada pelos investigadores no dia 2 de agosto deste ano, Plastino marcou um cafezinho com o vereador Bebé.

Plastino: Você precisa tomar um café hoje comigo.
Bebé: Hoje? Vixe Maria, Nossa Senhora.
Plastino: É o seguinte, eu estou indo para São Paulo amanhã às 11h. Tem que ser antes. Pode ser?
Bebé: Oh, se for cedinho... Você tá falando pra aquele café lá? Não, Marcelo, quando você volta?
Plastino: Então, eu só volto na sexta.
Bebé: Não, Marcelo, fica tranquilo. Não, Marcelo, não, você está me ajudando pra caramba, Marcelo.
Plastino: Então, mas aí é o seguinte, eu queria tirar isso da minha agenda, você entendeu? Da minha cabeça.
Bebé: Não, Marcelo, pô. Para mim, seria até melhor, rapaz. Se você puder fazer isso, mas três, quatro dias aí, Marcelo.
Plastino: Hum... tá bom, tudo bem.
Bebé: Oh, desculpa de eu não tomar esse café aí, hein?! (risada)
Plastino: Tá bom, tá bom.

No dia 8 de junho, o vereador Samuel Zanferdini recebeu um telefonema de Plastino para tomar um café.

Plastino: Vamos tomar um café hoje?
Zanferdini: Vamos, que horas é melhor para você?
Plastino: É, você pode... você quer passar aqui depois do almoço?
Zanferdini: Passo. Você quer que passe que horas, 14h30?
Plastino: Duas horas.
Zanferdini: Pode ser.
Plastino: Aí você me dá um toquezinho, no mesmo lugar, e aí eu abro e a gente conversa, tá bom?
Zanferdini: Combinado então. Duas horas eu passo aí.

No dia 4 de maio, o convite para o café foi feito por Plastino ao vereador Giló. Os dois se enconstraram em um estabelecimento na Avenida Antônio Diederichsen.

Plastino: Você tá aqui em Ribeirão?
Giló: Tô em Ribeirão.
Plastino: Você não pode tomar um café comigo ainda hoje?
Giló: pode ser um pouquinho mais tarde, umas 16h?
Plastino: Aonde que a gente pode tomar um café?
Giló: Pode ser na sua empresa?
Plastino: Não, vamos tomar um café fora. Escolhe um lugar aí.

Em nota, Zanferdini respondeu que não tem envolvimento com as questões mostradas na reportagem, e que está com a consciência tranquila.

O advogado de Bebé, Roberto Seixas Pontes, informou que o vereador e o empresário têm uma relação de amizade. “Não houve esclarecimento se havia ou não encontro regular entre eles. Não houve encontro, o que houve foi o Marcelo tentando marcar um encontro com o Bebé.”

A assessoria do vereador Giló informou que ele é inocente e que vai provar isso na Justiça.

A defesa de Plastino nega que haja pagamento de propina a políticos, mas confirma os encontros com vereadores. "Não tem conversa do Marcelo com vereador dizendo a respeito de dinheiro dentro de revista. Teve um encontro do Marcelo, salvo engano com dois vereadores, um em restaurante e outro em posto de conveniência, para tratar de assuntos políticos. Eu não tenho dinheiro vinculado a esse encontro. A atividade desempenhada pela Atmosphera é totalmente regular, o ativo dela, o patrimônio dela é totalmente lícito", disse o advogado Júlio Mossin.

Segundo o advogado, Plastino e a empresa contribuem com as investigações.


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