As contradições na carta de Dilma

Helio Gurovitz | G1

A presidente afastada Dilma Rousseff leu ontem uma carta aos senadores e à população em que se diz vítima de um “inequívoco golpe”. “Se consumado o impeachment sem crime de responsabilidade, teríamos um golpe de estado”, disse. Ela sugeriu a realização de um plebiscito sobre a antecipação das eleições e a “reforma política e eleitoral”.


Dilma faz a leitura de carta a nação no Palácio da Alvorada, em Brasília
Dilma Rousseff (PT)

Dilma tem todo o direito de se manifestar. É natural que peça sua absolvição ao Senado, ainda que a leitura da carta tenha efeito nulo. Mais de dois terços dos senadores estão convencidos de que ela cometeu fraudes fiscais e de que não tem condição política de voltar ao poder. Diante disso, a carta permite ao menos entender contradições de Dilma, seu apego a ideias equivocadas, sua distância da realidade e sua dificuldade para praticar política de modo eficaz.

No campo das contradições, duas se destacam. A mais eloquente é Dilma afirmar ser “fundamental a continuidade da luta contra a corrupção” no mesmo dia em que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a abertura de uma investigação contra ela e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por obstrução de Justiça nas investigações da Operação Lava Jato.

Dilma nomeou Lula ministro da Casa Civil para tentar blindá-lo das investigações. Insiste em se dizer honesta e em afirmar que não tirou nenhum proveito pessoal dos esquemas ilícitos. Não há mesmo prova de seu envolvimento nas tramoias mais escabrosas urdidas pelo Partido dos Trabalhadores (PT) para se manter no poder. Mas as acusações feitas pelo empreiteiro Marcelo Odebrecht e pelo marqueteiro João Santana deixam claro que o dinheiro do petrolão foi usado em sua campanha e que ela tinha conhecimento do caixa dois.

A segunda contradição é reconhecer que “o Brasil vive um dos momentos mais dramáticos de sua história”, como se os 13 anos de governo do PT nada tivessem a ver com isso. Na visão de Dilma, desde o início de seu segundo mandato, “medidas, ações e reformas necessárias para o país enfrentar a grave crise econômica foram bloqueadas”.

Os fatos a desmentem. A razão para o descontrole inflacionário e para o agravamento da recessão foi a incompetência na gestão da economia desde que Guido Mantega assumiu o Ministério da Fazenda. Houve total descontrole nas contas públicas e agravamento na nossa situação fiscal, culminando com o fracasso do ex-ministro Joaquim Levy, convocado com a missão ingrata de descumprir tudo o que Dilma prometera na campanha pela reeleição.

Em sua carta, Dilma demonstra continuar incapaz de compreender os problemas reais do nosso país. De nada adianta afimar que seu lema continuará a ser “nenhum direito a menos”. Direitos têm custo. Sem rever os privilégios e a estrutura que a Constituição de 1988 armou para atender a dezenas de grupos de interesse, será impossível reequilibrar nosso Estado. Dilma parece acreditar que a sociedade dispõe de recursos inesgotáveis.

A distância da realidade fica ainda mais evidente quando ela tenta reconhecer seus erros sem nomeá-los. Se é necessário um momento de contrição, ele precisa ser explícito. Não há como construir elo genuíno com qualquer audiência sem isso. Do contrário, suas palavras não apenas soam vazias. Elas são vazias mesmo.

É na política que tal llimitação revela suas consequências mais dramáticas. A ideia de um plebiscito para convocar novas eleições não é aceita nem dentro do PT, que ainda tem esperança de eleger Lula em 2018. De nada adianta, a esta altura, falar em pacto nacional, reforma política ou diálogo com o Congresso e as forças produtivas. Por que isso não foi feito enquanto ela estava no poder?

Eis a questão que permanece sem resposta. Dilma não pode, ao mesmo tempo, julgar-se vítima de injustiça ou de um “golpe” e propôr o diálogo com aqueles a quem acusa de cometê-lo. Como nenhum outro momento em sua carreira, a leitura da carta revela apenas a extensão da derrota dela e do projeto de poder do PT.


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