A grande patada natalina

Contrário a inovações tecnológicas, Aldo Rebelo é o novo ministro da Ciência, uma ofensa pessoal para o setor


Cora Rónai | O Globo

Tomei conhecimento da existência de Aldo Rebelo em meados dos anos 90, quando ele apresentou um projeto de lei que proibia o uso de tecnologia nas repartições públicas, para evitar que os burocratas perdessem seus empregos. Devia lamentar, então, o progresso já obtido com as máquinas de escrever elétricas e com as copiadoras Xerox, e certamente tremia em pensar no que poderia acontecer ao serviço público com o uso de computadores. Na verdade, detestava até essa palavra, “computadores”: num outro projeto de lei, igualmente obtuso, pretendia impedir o uso de estrangeirismos, propondo que usássemos ordenadores e ratos.


Aldo Rebelo
Tenho certeza de que, à noite, depois de receber pelo correio as últimas notícias da Albânia, ele sonhava com os bons tempos das folhas de papel almaço, das canetas tinteiro e das ligações telefônicas feitas através de telefonistas. A indicação do seu nome para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação é uma ofensa pessoal para esses setores, e uma patada na cara de quem acha que Ciência, Tecnologia e Inovação são áreas essenciais para o progresso de um país.

Vocês chegaram a ver essa notícia? A venda de smartphones no Brasil cresceu fantásticos 49% entre julho e setembro passados, comparada ao mesmo período do ano passado. Para Leonardo Munin, analista de pesquisas da IDC Brasil, que conduziu o levantamento, o resultado foi consequência da queda de preços dos aparelhos, que, no começo de 2011, custavam em média R$ 900, contra os R$ 590 de hoje.

Para quem acompanha de perto o mercado, nada disso foi surpresa. 2014 foi um ano de lançamentos notáveis nos segmentos de entrada e, sobretudo, naquela faixa intermediária em que se destaca o Moto G, mas onde brilham outros excelentes celulares como o Lumia 830, o Zenfone 6, o Galaxy Gran Duos, o Xperia M2 Aqua ou o G3 Beat, para ficar apenas nuns poucos exemplos.

A notícia, que deve ter causado uma severa reação alérgica no ministro Aldo Rebelo, foi das poucas boas novas das últimas semanas. Ela revela que mais de 15 milhões de novos smartphones chegaram às mãos dos usuários, o que significa mais conexões com a internet, mais informação, mais chances de educação, mais inclusão social.

Os smartphones intermediários estão num momento tão bom, aliás, que muitos aparelhos mais caros estão pegando carona no sucesso e na ótima relação custo x benefício da faixa e se apresentando como “intermediários”. Uma pesquisa básica no Google traz resultados numa variação enorme de preços, entre pouco menos de R$ 700 (como o próprio Moto G) a quase R$ 1,3 mil.

Não é preciso ser engenheiro ou especialista em composição de preços para perceber que não é fácil — nem justo — comparar aparelhos com custo tão diferente. Mas como decidir, então, o que é ou não é um smartphone intermediário? As especificações técnicas variam ainda mais do que os preços: numa mesma faixa encontram-se aparelhos para um ou dois simcards, com telas grandes ou pequenas, com resolução melhor ou pior, com processadores mais ou menos poderosos...

Essa questão bizantina mereceria (se é que não merecerá) a criação de um grupo de trabalho no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Até lá, temos que ficar com a definição dos fabricantes e dos lojistas, que estão jogando na cesta dos intermediários todo e qualquer aparelho que não seja nem o mais barato, nem o mais caro da casa.


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