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Ianomâmis: a guerra de um povo entre a vida e a morte

O grito dos irredutíveis de Watoriki, microcosmo da maior área indígena do país, sob ameaça


Arnaldo Bloch e Sebastião Salgado | O Globo

Março, 2014. Amazonas, divisa com Roraima, entre as bacias do Rio Negro e do Rio Branco. Ao entrar na casa-aldeia de Watoriki, convidados para testemunhar a festa fúnebre de reahu —, durante expedição às terras ianomâni organizada por Sebastião Salgado e acompanhada pelo GLOBO — somos saudados em coro.

— Awei napë pë kopema!

“Os brancos chegaram”, traduz o lendário Davi Kopenawa, chefe da aldeia. Mas, no vernáculo, napë é um ser incorpóreo, oposto de yanomam (ser humano). Ou, nos relatos dos anciãos “espectros calvos esbranquiçados vindos das costas do céu e subindo os rios para comer carne humana defumada como carne de macaco”.

Cansados de quatro horas num monomotor vindo de Manaus, fazemos a volta da maloca, saudando seus habitantes. Mas a marcha é refreada por uma visão: 60 cadáveres de macacos atados por cipó pendem em fogo baixo. De cócoras, os corpos familiares fazem pensar que os brancos poderiam estar ali: na trilha das missões e das comissões de limites, das estradas abertas pelo exército nos anos 1970 e da corrida do ouro na década seguinte, 80% dos ianomâmis morreram.



O pensamento sombrio é aplacado por sorrisos e mãos abertas dos mais velhos, nus; pelos meninos com pequenas flechas e os curumins carregados por jovens mães; pelo mirar tímido das mulheres de tanga, seios e nádegas à mostra; e pela cautela dos homens da nova geração, de bermudas (algumas com as cores do Brasil) e peito aberto pintado de jenipapo e carvão.

Os duzentos quilos de macacos são apenas parte do rito que viemos testemunhar e, neste primeiro dia de exéquias — em honra de um morto cujo nome não se pronuncia — o sol é refletido pela parede lisa e úmida da Serra Demini, visível de qualquer ponto dos 80 metros de diâmetro da maloca. Coberta de palha e folhas, com uma praça de terra batida ao ar livre, lembra um estádio. No centro, sob efeito da yakuana, pó marrom feito de ráspas de árvores que dá acesso aos espíritos (os ianomâmis são donos de vasta etnobotânica e um menu de plantas mágicas, médicas, letais, afrodisíacas), Genésio, membro da elite de pajés, solta gritos que imitam as vozes dos animais, faz poses que emulam fantasmas de árvores e gestos que repetem as coreografias dos espíritos protetores e dos maléficos. Com espanto, aponta para a serra Demini, onde reside o vento, ou para o céu, pedindo que o firmamento não caia sobre urihi-a, a “terra-floresta” criada a partir de matéria amorfa. Tragédia que passa facilmente do símbolo milenar à realidade, na interpretação de Davi, que observa a cena.

— A terra não morre. Só a gente. A terra só morre se o branco destruir. O chão fica frio, as árvores secam e as pedras esquentam. Os xapiripë, espíritos da serra, não podem mais dançar e vão embora. Os espíritos ruins reinam e todos morrem.

Registrada no livro “La chute du ciel” (“A queda do céu") escrito pelo antropólogo francês Bruce Albert (maior estudioso dos ianomâmi) em parceria com Davi, a ideia de queda, que faz pensar nos irredutíveis gauleses de Asterix, afina-se com o discurso ambientalista, cada vez mais convergente com a cosmologia indígena.

Sob o céu que anoitece, os brancos se deitam cedo, em redes, entre famílias e “parentes” convidados para a festa, e curtem o breu que, numa aldeia sem luz elétrica, é permeado por lanterninhas e pequenas fogueiras que vão amenizar o frio da madrugada amazônica. Logo começam os discursos em yanomae, sobre os fatos do dia, a festa e o surto de gripe que ameaça duas anciãs e três crianças com pneumonia. Espirros, tosses agudas e gemidos de dor se alternarão, noite adentro, com roncos sobressaltados dos idosos.

Quando o dia nasce, o povo da aldeia já partiu à caça e à coleta de pupunha para fazer o “mingau”. Caçadores com arcos e flechas (e, raramente, espingarda) aventuram-se, usando as artes de imitar os animais, procurando seus alimentos típicos, seguindo seus rastros. Mais tarde chegarão com mutuns, e, nos dias seguintes, uma onça, um tatu, antas, porcões, cotias.

No posto da Funai, chefiado por Davi, enfermeiras e um médico cubano animados por um papagaio peripatético de asas cortadas que atende por Kiko (mas é fêmea), comunicam-se por rádio com a metrópole e outras comunidades. Parece que vai chegar remédio novo.

No fim da tarde, a pupunha macerada e misturada à água trazida pelas mulheres do igarapé onde todos se banham já fermenta em grandes galões. Nas franjas das telhas, secam os bijus de mandioca. Nesta madrugada, os brancos serão despertados por danças rituais, nas quais os homens e as mulheres marcham batendo os pés, em dezenas de voltas, enoando cantos polifônicos. Entre o fascínio e a insônia, os brancos experimentarão o banheiro reservado a eles. Contaminados pela alimentação da cidade e a corrupção da alma, os dejetos dos brancos são considerados impuros para a mata. Só à medida que a confiança mútua se estabelecer, os napë terão licença de usufruir das abluções in natura, segundo usos e costumes locais.

No dia seguinte o mingau de pupunha ligeiramente fermentado repousa numa grande arca. Em cuias de coco, os participantes da festa recolhem o vinho alaranjado e oferecem uns aos outros em grande quantidade, para regurgitar. Então, recomeçam a beber. O ciclo se repete até que a arca se esvazie. Cercado de grande hilaridade, é um tipo de guerra satírica, no qual uns “matam” os outros mas a morte nunca chega, já que vão dormir exaustos, e dançar na noite seguinte, e, ao amanhecer, correr, de novo, para a arca.

A negação da morte é levada a sério, e só com muito esforço é possível descobrir o que aconteceu — já que, pelas regras, falar do morto é proibido. Seus objetos foram queimados, seu nome é proscrito, os fatos da morte não interessam. Mas, com o passar dos dias, a história por trás do luto vai se desvelando, em relatos curtos e pequenas catarses. Irmão caçula de Raimundo, chefe de família, um dos líderes locais, o jovem caçador morreu depois de matar um mutum azul. Ao subir a árvore para recuperar sua flecha, caiu de costas. Mortes assim, na mitologia ianomâmi, só ocorrem quando se mata o seu duplo animal. Daí a importância e a grandeza da festa.

Envolto numa espécie de rede feita de folhas de bananeira, o corpo foi suspenso entre duas árvores próximas ao igarapé, e assim ficou até poder ser descarnado, e seus ossos foram queimados, e suas cinzas guardadas nas urnas que ora aguardam o desenrolar da festa, na maloca sob a serra, no mesmo local onde os 60 macacos são assados, dia e noite, em fumaça lenta e persistente.

Só no último dia o povo terá a liberdade do pranto. Antes, pajés e visitantes soprarão yakuana nas narinas. Alguns vão se unir em duplas e realizar o waymou, de diálogo arcaico, de metáforas entrelaçadas, em forma de desafio. No ápice da pajelança que envolve até crianças, estão todos atados ao que vem da montanha e do céu.

Então, os brancos são expulsos da maloca. As cinzas são enterradas ou guardadas por parentes.

E o pranto, ouvido do lado de fora, é tão intenso que parece que o céu caiu sobre a terra.

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