Protegendo a máfia

Romeu Tuma Junior, ex-secretário nacional de Justiça, revela que o governo Lula deu privilégios a um russo procurado pela Interpol


Robson Bonin | Veja

Em 2007, o magnata Boris Berezovsky ganhou ares de celebridade no Brasil. Famoso na Rússia, onde nasceu, ficou rico e de onde teve de sair fugido acusado de envolvimento com a máfia, ele era o sócio mais vistoso de uma empresa que ajudou o Corinthians a montar um time de astros. O Ministério Público, porém, descobriu que a parceria ocultava uma engrenagem complexa que usava a compra e a venda de jogadores de futebol como biombo para disfarçar um esquema internacional de lavagem de dinheiro. Não se conhecem até hoje exatamente a dimensão do crime e suas reais conexões, até porque a parceria foi desfeita, os envolvidos desapareceram e Boris, o principal acusado, morreu, no início do ano. em Londres, onde estava asilado desde que fugiu de seu país. Na época do escândalo, surgiram indícios de que o magnata russo mantinha relações próximas Marcelo Sak com políticos brasileiros e cultivava interesses que nada tinham a ver com times de futebol. Mas isso também nunca foi devidamente esclarecido. 


Lançado na semana passada, o livro Assassinato de Reputações — Um Crime de Estado, do ex-secretário nacional de Justiça Romeu Tuma Júnior, resgata um capítulo sobre a passagem de Boris Berezovsky pelo Brasil. São duas revelações importantes. A primeira: ele quase foi preso em São Paulo. A segunda e mais grave: não foi preso porque o Ministério da Justiça deu ordem para não prendê-lo. Quando isso aconteceu, Tuma Junior, como delegado e corintiano, desconfiou da parceria e resolveu investigar o principal investidor: "Havia muitas coisas por detrás (da parceria): a criação de um banco de
apostas para manipular resultados esportivos, todo um envolvimento com gente do governo federal para atuar em projetos cuidadosamente indicados, e que gerariam parte dos recursos para financiar partidos e pessoas, corno era o caso da compra da Varig", relata Tuma Junior. Eram, porém, apenas suspeitas.


O delegado conta que soube da chegada do russo a São Paulo. Consultou os arquivos e descobriu que ele estava na lista de procurados da Interpol.
"Chamei a Polícia Federal e mandei prendê-lo. Ele tinha um mandado de prisão da Interpol", conta. Para o autor, prender Berezovsky seria um procedimento natural da Polícia Federal em relação a um procurado internacional. Mas um telefonema o fez mudar de ideia. Segundo conta no livro, tão logo acionou a polícia para prender o magnata russo, ele recebeu uma ligação no celular. Do outro lado da linha estava o então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos. "Você não pode mexer com essa pessoa, ele está legal no Brasil", advertiu o ministro. O autor tentou argumentar, mas a outra resposta foi ainda mais clara: "Não pode prender de jeito nenhum, Romeu! A Federal não vai fazer nada, não vou permitir, ele não pode ser preso. Eu recomendo que você não mexa com ele". Depois de ouvir as declarações do ministro, Tuma Junior anotou: "Por tudo que a gente vê hoje, por todos os favores que essas pessoas recebiam, havia um troco que ia para uma caixinha do Partido dos Trabalhadores", registra o autor. Para Tuma Junior, o interesse do magnata russo no Brasil era um só: conseguir o título de refugiado político para escapar das ameaças que sofria dos russos ligados ao presidente Vladimir Putin, seu inimigo, na Europa. Berezovsky teria conseguido alcançar seus objetivos, não fosse a ironia de meses depois Romeu Tuma Junior ter sido alçado pelo então presidente Lula ao comando da Secretaria Nacional de Justiça, justamente o órgão que iria abrir as portas do Brasil ao magnata. 

Na edição passada, VEJA publicou os principais trechos do livro do ex-secretário, que acusou o governo petista de fabricar dossiês contra adversários, de manipular investigações e ainda apontou Lula como informante do Dops na época em que era sindicalista e liderava as greves no ABC paulista — o que foi motivo de muita polêmica. O ex-presidente não se pronunciou. A oposição apresentou requerimento para que o autor fosse convidado a falar no % Congresso. A base aliada, porém, blindou o governo e acabou derrubando os requerimentos. Um dos principais personagens do livro, o petista Gilberto Carvalho prometeu processar Tuma Junior diante do relato de que o ministro teria confessado que havia pagamento de propina no governo do prefeito Celso Daniel, morto em 2002, o que estaria por trás do assassinato. Nas redes sociais, a militância virtual do PT se encarregou de fazer o que sabe de melhor. Sem entrar no mérito das declarações do autor, sem sequer ter lido o livro, passou a tentar desconstruir a figura do ex-secretário, como se as graves revelações que ele fez se tornassem menos importantes por causa do seu passado. A primeira edição se esgotou antes mesmo de chegar às livrarias.


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