Piloto envolve deputado

Condutor do helicóptero apreendido com 443kg de cocaína afirma que Gustavo Perrella, filho do senador Zezé Perrella, autorizou o voo e pede quebra de sigilo telefônico. Parlamentar nega

ALESSANDRA MELLO
e DANIEL CAMARGOS | CORREIO BRAZILIENSE

Belo Horizonte — O advogado contratado pela família do piloto Rogério Almeida Antunes, 36 anos, preso em flagrante na cidade de Afonso Cláudio, na divisa de Minas Gerais com Espírito Santo, transportando 443 kg de cocaína em um helicóptero da Limeira Agropecuária Ltda, empresa da família do senador Zezé Perrella (PDT-MG), contestou as informações de que ele teria agido sem autorização dos patrões. Segundo Nicácio Pedro Tiradentes, o deputado estadual Gustavo Perrella (Solidariedade) — filho do senador e um dos donos da empresa, ao lado da irmã e de um primo — autorizou o voo.

Ele pedirá a quebra do sigilo telefônico do piloto para tentar provar que, antes de decolar no domingo, ele fez duas ligações para o parlamentar. O advogado garante que Rogério não sabia que transportava drogas e foi informado pelo copiloto, Alexandre José de Oliveira Júnior, 26 anos, que o carregamento era insumo agrícola.

De acordo com Nicácio, o piloto é homem de confiança da família Perrella, tanto que estava lotado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, por indicação de Gustavo Perrella. A Polícia Federal expedirá cartas precatórias para que o deputado seja ouvido no inquérito. A carga foi avaliada em cerca de R$ 50 milhões.

O advogado conta que o piloto foi informado pelo copiloto de que levaria a carga para uma propriedade da família Perrella, no Espírito Santo, e, antes de voar, pediu autorização para fazer o frete. 


Nicácio foi contratado pelo pai do piloto, o empresário Osmar Alves Antunes, dono desde 1998 de uma firma de produtos agropecuários em Campinas, interior de São Paulo. “Ele (Rogério) tinha autorização do patrão para fazer esse frete. Tenho como provar que ele falou com o deputado duas vezes antes de viajar”, informou disse o advogado. Nicácio entrará hoje com um pedido de liberação do piloto. “Por que o deputado não assumiu que autorizou o voo?”, questionou.

Bate-boca

Gustavo Perrella alegou serem falsas as informações do advogado do piloto, mas disse que não “baterá boca” com ele, delegando a resposta ao seu advogado. “É uma leviandade. Um ato criminoso ter a ousadia de falar que o terreno pertence à família Perrella. Ele (Rogério) mandou um torpedo para o Gustavo (Perrella) falando sobre um frete”, afirmou a desfesa. O piloto teria informado que havia conseguido um frete por R$ 12 mil e o deputado haveria respondido com um “OK”. As informações contradizem o que disse o parlamentar em entrevista coletiva na segunda-feira. Perella afirmou que Rogério havia dito a ele que a aeronave estava em reparo e que, depois de ser informado da prisão, havia decidido dar queixa de roubo.

O copiloto Alexandre José de Oliveira Júnior é dono da JR Helicópteros Escola de Aviação Civil, fundada em 2011, e que teve a autorização para funcionamento cassada em julho pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Além do piloto e do copiloto foram presos Robson Ferreira Dias, 56 anos, e Everaldo Lopes de Souza, 27, responsáveis por descarregar o helicóptero, que pousou na zona rural de Afonso Claúdio, região Serrana do Espírito Santo. Os quatro foram levados para a casa de detenção em Viana (ES). A reportagem tentou falar com o pai do piloto, mas na empresa dele ninguém retornou os pedidos de entrevista.

Perrella prestará depoimento

O deputado estadual Gustavo Perrella (Solidariedade) terá de prestar depoimento à Polícia Federal nos próximos dias. Além dele, sua irmã Carolina Perrella Amaral Costa e um primo André Almeida Costa, todos sócios da Limeira Agropecuária Ltda, serão interrogados. A empresa da família é proprietária do helicóptero Robson 66, apreendido com 443 quilos de cocaína no domingo. A empresa foi criada em maio de 1999, e o senador Zezé Perrella, ex-presidente do Cruzeiro Esporte Clube, deixou de ser sócio em maio de 2008.

O delegado da superintendência da Polícia Federal em Vitória, Leonardo Damasceno, informou que, além de escutar os representantes da família Perrella, também rastreará o trajeto do helicóptero, para tentar descobrir o caminho da droga. A PF já sabe de quem é a propriedade do terreno onde ocorreu a apreensão, mas não divulgou. O terreno foi vendido no último mês e a escritura ainda não foi transferida. Até o momento, a responsabilidade pelo transporte da droga está com o piloto da aeronave, Rogério Almeida Antunes.

A relação do piloto com o deputado é estreita. Rogério é funcionário da assembleia, nomeado pela terceira secretaria da Casa, ocupada pelo deputado estadual Alencar da Silveira Júnior (PDT). 

“Esse menino (o piloto) foi indicação do Gustavo Perrella”, se exime Alencar. De acordo com o pedetista, a indicação é reservada ao presidente da Comissão de Turismo, Indústria e Comércio, cargo ocupado por Perrella.


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