Aliado incômodo e ameaçador

Acusado de integrar um esquema de corrupção, o ministro do Trabalho, Manoel Dias, ameaça fazer revelações "impublicáveis", caso seja demitido

Alan Rodrigues - IstoÉ


No comando do Ministério do Trabalho desde o início da gestão de Dilma Rousseff, o PDT se tornou um fardo pesado para o governo carregar. Mas o governo avalia que os votos de 26 deputados e três senadores e, principalmente, os cerca de dois minutos que o aliado agrega no horário eleitoral justificam o sacrifício. Desde 2011, dois ministros da cota do partido foram afastados do cargo. O ex-deputado Brizola Neto deixou a pasta por não conseguir unir o partido e não combater a indústria dos sindicatos instalada no Ministério e denunciada por ISTOÉ há dois anos. Já Carlos Lupi foi apeado do cargo na faxina de 2011, envolvido em graves denúncias de corrupção. 


Agora, como num filme repetido, o aliado volta a causar problemas de mesma natureza. O ministro pedetista Manoel Dias, conhecido por Maneco, é acusado de integrar um esquema que desviou R$ 400 milhões dos cofres públicos. Em duas recentes operações da Polícia Federal, quatro integrantes da cúpula do Ministério foram presos e o secretário-executivo Paulo Pinto teve de deixar o cargo. O esquema funcionava por meio de fraudes em contratos para prestação de serviços e realização de obras, ambos fictícios.

Ao contrário de seus antecessores que caíram em silêncio, Maneco surpreendeu o governo na semana passada. Depois de ver as investigações chegarem à sua mulher, Dalva Dias, resolveu atirar.

Ainda com o apoio formal do PDT, o ministro determinou uma ampla auditoria em todos os convênios firmados e disparou: "Não vou sair como bandido e picareta. Se me mandar embora, tomo providências. São providências impublicáveis". Feitas as ameaças, a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, entrou em cena para procurar minimizar o estrago. "Não há irregularidades de Manoel Dias à frente do Ministério", afirmou a ministra, sinalizando que o governo não pensa em abrir mão da parceria com o PDT. "A conduta do ministro tem sido correta na tomada de medidas firmes em relação aos processos envolvendo convênios com entidades." A ministra disse ainda que Maneco pediu auxílio da Casa Civil, da Controladoria-Geral da União (CGU) e do Ministério do Planejamento para ajudá-lo a sanar as irregularidades na pasta que comanda. Sobre as ameaças, Gleisi minimizou: "Foi um desabafo de quem se sente injustiçado e que acabou se expressando de maneira que gerou mal-entendido". O temor do governo é de que, se esticar demais a corda, as tais providências impublicáveis que Maneco ameaça levar a cabo possam envolver novos personagens, tanto do PDT como fora dele, e inviabilizar a manutenção da aliança.

Auditoria da CGU revelou que já existem provas concretas de que o ministro repassou dinheiro a entidades e militantes do PDT sem comprovar se, de fato, os serviços foram prestados e se os funcionários existiam. Uma das ONGs investigadas é a Agência de Desenvolvimento Regional do Vale do Rio Tijucas e Itajaí Mirim (ADRVale). De acordo com as investigações, o ministério sob o comando de Dias fechou um contrato de R$ 6,9 milhões com a entidade para qualificação de mão de obra de trabalhadores. Mas a ONG não comprovou a contratação dos profissionais para atividades ligadas aos cursos oferecidos. Um desses profissionais é John Siever, um ex-dirigente do PDT de Santa Catarina, terra natal do ministro. Na última semana, Siever afirmou que Manoel Dias montou o esquema para que funcionários do PDT recebessem por serviços partidários. Segundo o militante trabalhista, as irregularidades ocorreram em 2008 e duraram pelo menos seis meses. Em 2008, Siever, que viria mais tarde a se tornar presidente da Juventude do PDT, prestava serviço à Universidade Leonel Brizola, instituição bancada pela fundação homônima ligada ao partido, remunerado indiretamente pelo Ministério do Trabalho, via convênios fantasmas. Fundador da Universidade Leonel Brizola, Dias preside desde aquela época a fundação do partido que mantém a universidade, além do diretório estadual pedetista em Santa Catarina. Para piorar ainda mais a situação do ministro, veio à tona nos últimos dias um relatório do Tribunal de Contas de Santa Catarina que aponta o envolvimento de sua mulher, Dalva Dias, em irregularidades em contratos com entidades ligadas ao PDT. Documentos apontam suposto dano ao erário e favorecimento de três associações trabalhistas em parcerias de R$ 2,1 milhões, firmadas nas gestões de Dalva como secretária estadual de Assistência Social, Trabalho e Habitação do Estado.

Diante das denúncias, o líder do PDT na Câmara, André Figueiredo (CE), saiu em defesa do colega de partido e disse que os trabalhistas não vão indicar outro nome, caso Dias seja demitido ou resolva renunciar. "Não existe a menor possibilidade de o PDT indicar outro nome para esse Ministério.

Isso já está acertado entre nós", afirmou o deputado. Segundo ele, a sigla acertou também "que não sairá da base de sustentação do governo Dilma, mas o apoio dos trabalhistas ao PT na eleição só será decidido em 2014". Figueiredo afirma que existe uma ala do PDT que deseja apoiar o socialista Eduardo Campos, governador de Pernambuco. Dilma não quer reforçar um eventual adversário na corrida eleitoral de 2014. Por isso, no momento, a demissão de Dias está descartada. A saída do PSB da Esplanada e a perspectiva cada vez mais concreta do lançamento da candidatura de Eduardo Campos à sucessão presidencial, além da criação de duas novas legendas – Solidariedade e PROS (Partido Republicano da Ordem Social) –, têm preocupado muito a cúpula petista. O PT já avisou aos interlocutores trabalhistas: aceita até fazer concessões, como abrir mão de candidaturas ao executivo em diversos Estados em benefício do PDT, desde que no plano nacional eles estejam ao lado de Dilma.

Como se vê, qualquer esforço é válido na tentativa de garantir um palanque mais robusto em 2014. Até fingir que não há problema com um aliado mais do que incômodo.


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