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Fila de espera por cirurgia em hospitais do RN chega a cinco meses

Aliny Gama e Carlos Madeiro
Do UOL, em Natal

Os pacientes que necessitam de cirurgia no Rio Grande do Norte enfrentam filas de espera que podem chegar a cinco meses. Durante visita aos hospitais Walfredo Gurgel e Ruy Pereira, o UOL encontrou pacientes que estão internados por mais de 150 dias sem serem operados e veem sua condição de saúde piorar por não receberem o tratamento cirúrgico, que deveria ser feito imediatamente na maioria dos casos.

Segundo relatos, os problemas acontecem por falta de vagas e de suprimentos nos hospitais, além da greve dos médicos no Estado, que já se prolonga por quase 80 dias.

Muitos pacientes esperam por cirurgias nos corredores do Hospital Walfredo Gurgel, maior unidade de atendimento a emergência do Estado. Na noite da última quinta-feira (12), o jovem Jailson França, 27, estava sentado em uma cadeira de rodas por mais de uma hora, esperando que um dos ortopedistas o chamasse para ver os exames de raio-x das mãos. O rapaz conta que sofreu um acidente de moto há dois meses e meio e somente no último dia 11 tinha se submetido a duas das cinco cirurgias que deve corrigir as fraturas nas mãos, no joelho direito e na perna esquerda.

"Cheguei aqui todo machucado e passei muitos dias com dores porque os médicos e enfermeiras passavam por mim e não ligavam para meu sofrimento. Demoraram muito para fazer as cirurgias, sei que tem muita gente, mas eu tenho fé que sairei logo daqui, desse ambiente horrível", disse, confiando que, após a consulta, o ortopedista iria marcar logo as demais cirurgias. "A gente fica tanto tempo aqui que perde a noção do tempo, mas já esperei quase três meses e terei forças para esperar mais para sair curado daqui", afirmou.


Segundo o Sinmed (Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte), denúncias de profissionais que trabalham no Walfredo Gurgel revelaram que existem cerca de 40 pessoas na fila de cirurgia ortopédica, mas devido às condições precárias e à falta de médicos suficiente para atender a demanda, pacientes podem esperar meses por um procedimento que deveria ser imediato.


"Quando o paciente chega com fratura ou quebra no osso, ele tem de ser imediatamente operado, porque os ossos vão se calcificando e o resultado pode não ser satisfatório", disse o presidente do Sinmed, Geraldo Ferreira.


Cinco meses de espera por uma cirurgia

 
A situação não é diferente na espera por cirurgia no Hospital Ruy Pereira. Na unidade, pacientes chegam a esperar mais de cinco meses por um procedimento cirúrgico.

Dione Araújo dos Santos, 50, era a acompanhante de Luiza Fernandes, 80, no último dia 12 de julho. Segundo ela, a idosa tem diabetes e foi internada no Ruy Pereira por conta de uma necrose em um dos dedos do pé, mas a situação piorou e a paciente terá de amputar a perna.


“Ela está há cinco meses aqui à espera de uma cirurgia, que nunca chega e só vem piorando o estado de saúde. Agora, a perna dela está toda preta e o médico disse essa semana que vai ter de amputar todo o membro. Para uma idosa de 80 anos, uma cirurgia dessas é bastante traumática e só gera revolta”, disse a acompanhante.


Dione contou que a família de Luiza Fernandes está mobilizada há cinco meses, se revezando, para não deixar a idosa sozinha no hospital. “Ela sente muita dor, chora, reclama porque está cansada de esperar a cirurgia e questiona porque ainda não foi feita a cirurgia, mas não temos o que fazer. Ninguém do hospital dá uma resposta e a situação só vem piorando até parece que estão querendo que ela morra antes para não operá-la.”


Severina Maria de Oliveira, 65, está preocupada com a saúde do marido, Sebastião Calixto de Souza, 73. Ele espera há um mês por uma cirurgia para amputação de um dedo que necrosou devido a complicações da diabetes, mas a necrose já atingiu o pé e agora surgiram manchas na perna. "O quadro de saúde dele piorou. Os médicos dizem que vão fazer a cirurgia, mas opera um, opera outro e meu 'velho' vai ficando. Agora estamos com medo de ele ter de amputar a perna por conta dessa demora", disse Severina.

A dona de casa Damiana Fernandes, 39, conta que a espera por um tratamento adequado para a trombose arterial que Benedita Fernandes, sua irmã de 41 anos, sofreu fez com que ela acabasse com a perna amputada.


Damiana afirmou que a falta de medicamento para reverter a doença e a demora na cirurgia provocaram a amputação da perna da irmã. “Ela passou dias aqui, internada sem o medicamento para dissolver o sangue e acabou perdendo a perna. Estamos chocados, sem saber o que fazer, porque ela é uma pessoa nova, ativa, que fazia suas atividades em casa, mas agora vai ter de ficar em cima de uma cadeira de rodas”, lamentou.


Governo planeja mutirão de cirurgias ortopédicas

 
Segundo o "Plano de Enfrentamento dos Serviços e Urgência e Emergência do Rio Grande do Norte", divulgado pelo governo do Estado no último dia 4, quando decretou calamidade, um mutirão deve ser realizado para zerar as cirurgias ortopédicas nos próximos dias.

“Vamos fazer priorizando a ortopedia, que é o maior dos problemas da urgência, principalmente por conta da relevância dos acidentes de motocicleta. Uma equipe do Estado está fazendo um levantamento para apoiarmos. Nas cirurgias eletivas, o Ministério da Saúde já está fazendo em todos os Estados, com R$ 300 milhões que foram adicionais para zerar essas filas [R$ 10,2 milhões para o RN]”, explicou o Helvecio Magalhães, secretário Nacional de Atenção à Saúde do ministério.


Sobre a falta de medicamentos, insumos e equipamentos, o governo também informou que vai investir R$ 5 milhões para garantir o "abastecimento imediato das necessidades básicas dos hospitais da rede pública estadual".
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