Operação Monte Carlo

A ganância semfim de Cachoeira 

Inquérito no Supremo Tribunal Federal que investiga o senador Demóstenes Torres amplia a quantidade de políticos, entre parlamentares e prefeitos, citados em conversas mantidas pelo grupo do bicheiro
 

Vinicius Sassine - Correio Braziliense
 
O inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) que será enviado nesta semana aos integrantes da CPI criada para investigar os negócios do bicheiro Carlinhos Cachoeira traz novos indícios da tentativa do grupo criminoso de ampliar a rede de contatos. Além do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), a Polícia Federal detectou “diálogos telefônicos suspeitos” em torno do nome de outros políticos. Um dos relatórios enviados pela PF ao STF destaca trechos de conversas entre integrantes da organização criminosa, por exemplo, com menções ao deputado federal Sandro Mabel (PMDB-GO).

 
O relatório de “encontros fortuitos” de provas pontua autoridades políticas suspeitas de relação com o bicheiro e que só podem ser investigadas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) ou pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em razão do foro privilegiado. Um dos tópicos é referente ao deputado do PMDB, um dos mais influentes do PR até o início de outubro. Em entrevista ao Correio, Mabel nega qualquer relação com Cachoeira, mas admitiu ter encontrado o bicheiro “num jantar ou numa festa”.

 
O inquérito em curso no STF amplia a quantidade de políticos alcançados pelos tentáculos de Cachoeira. As gravações telefônicas que embasam as investigações da PF — agora sob a responsabilidade da Procuradoria-Geral da República (PGR) e do STF — mostram que, além de Mabel, outros políticos são citados no inquérito, como alvos do grupo de Cachoeira. Até então, não se tinha conhecimento dessas citações.

 
É o caso do senador Magno Malta (PR-ES). O gabinete do parlamentar retornou uma ligação a Jairo Martins de Souza, sargento da Polícia Militar do DF denunciado no âmbito da Operação Monte Carlo por, principalmente, contribuir para o esquema de arapongagem montado por Cachoeira. A mulher que faz a ligação a Jairo pergunta se ele quer deixar um recado ou enviar um e-mail. Não fica claro no diálogo telefônico quem seria, no gabinete do senador, o destinatário da mensagem do araponga.

 
As transcrições das conversas mostram ainda citações aos governadores do Paraná, Beto Richa (PSDB), e de Mato Grosso, Silval Barbosa (PMDB). Um encontro entre Cachoeira e o presidente do PRTB, Levy Fidelix, foi agendado por outro araponga do grupo, Idalberto Matias de Araújo, o Dadá. O bicheiro tinha interesse em controlar o partido, conforme as investigações da PF. Cachoeira chegou a dizer que estava “de olho” também no PRP.

 
A PF listou “encontros fortuitos” de provas envolvendo o prefeito de Itumbiara, José Gomes da Rocha (Em outros diálogos, Cachoeira fala da possibilidade de Mabel agir para “derrubar o ministro” Alfredo Nascimento, dos Transportes, e menciona o desejo de que o deputado assumisse o ministério. 


Nascimento foi demitido pela presidente Dilma Rousseff em julho do ano passado.
 
“A fazenda está no nome de uma empresa agropecuária minha. Fica à beira do Rio Araguaia”, afirma o deputado ao Correio. “Eu não conheço esse cara (Cachoeira). Encontrei esse camarada uma vez. Esses caras são malucos.” Mabel nega qualquer tipo de ação para desestabilizar Alfredo Nascimento no cargo de ministro. “Defendi Alfredo até o final.”

 
A aproximação ao presidente do PRTB foi feita por Dadá. “Ele vai chegar às 10h e um colega vai pegá-lo no aeroporto”, diz o araponga a Cachoeira, que havia perguntado se Dadá tinha conseguido manter contato com Levy Fidelix. A conversa telefônica foi gravada em 16 de maio de 2011. Quatro dias antes, Dadá havia informado a Cachoeira que o advogado de um partido político havia pedido R$ 300 mil “sem manutenção anual, ficando com o estado todo na mão, para nomear os municipais”. O bicheiro diz que a oferta deveria ser R$ 150 mil. Não há referência no diálogo sobre qual era o partido político objeto da negociação. Fidelix não foi encontrado pelo Correio para entrevista.

 
Vídeo mostra ação de policiais

 
Imagens divulgadas ontem à noite revelam que o grupo do bicheiro Carlinhos Cachoeira corrompia policiais, segundo as investigações da Operação Monte Carlo. O vídeo, divulgado pelo jornal Folha de S.Paulo, aponta que a organização criminosa contava com a colaboração de investigadores, como o delegado da Polícia Federal Fernando Byron. Em um das imagens, Byron, acusado de ser informante da quadrilha, aparece entrando e saindo do carro de Cachoeira depois de marcar encontro pelo telefone. Segundo a investigação, o delegado, que trabalhava em Goiânia, era consultado por Cachoeira toda a semana para saber sobre as atividades da PF na região.

 
Olho grande
 

Inquérito em curso no STF revela que grupo do bicheiro Carlinhos Cachoeira queria ampliar a rede de contato com políticos
 
Sandro Mabel (PMDB-GO)
 

O deputado federal é relacionado pela PF em razão de “diálogos telefônicos suspeitos” detectados nas investigações. Cachoeira denota nas conversas proximidade ao parlamentar.
 
Magno Malta (PR-ES)

 
Um dos denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF), Jairo Martins de Souza, fez contato com o gabinete do senador.

 
Beto Richa (PSDB)
 

Diálogos mostram interesse de integrantes do governo do Paraná de apresentar Cachoeira ao governador Beto Richa.
 
Silval Barbosa (PMDB)
 

Interlocutores do grupo tentaram marcar um jantar com o governador de Mato Grosso, Silval. Cachoeira estava de olho na exploração de loterias no estado.
 
Levy Fidelix (PRTB)
 

O grupo de Cachoeira fez contatos políticos com presidente do PRTB, conforme a investigação da PF. Há indícios de que o bicheiro se encontrou com Fidelix.

José Gomes da Rocha (PP-GO)
 

A PF também apontou “encontros fortuitos” de provas envolvendo o prefeito de Itumbiara (GO). Diálogos telefônicos tratam de uma dispensa de licitação que favoreceria o grupo de Cachoeira.
 
Lêda Borges (PSDB-GO)
 

A prefeita de Valparaíso (GO) agendou uma reunião com Carlinhos Cachoeira para tratar de assuntos políticos.
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