Empresa varejista dá 'aula de história' em fundação de Sarney

Suposto curso foi bancado com parte do dinheiro de um convênio com a Petrobrás, de R$ 1,3 milhão


Rodrigo Rangel e Leandro Colon

São Paulo - Uma empresa do ramo de comércio varejista de artigos de vestuário e acessórios, a Sousa Premiere, aparece como prestadora de serviços de um curso de capacitação de história da arte ministrado para a Fundação José Sarney, de São Luís. O suposto curso foi bancado com parte do dinheiro de um convênio com a Petrobrás, de R$ 1,3 milhão, firmado para patrocinar um projeto de digitalização do museu do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). O trabalho nunca saiu do papel.

A Sousa Premiere junta-se à lista de empresas fantasmas que aparecem na prestação de contas da fundação para o alegado projeto cultural. O Estado mostrou na quinta-feira que ao menos R$ 500 mil do valor total repassado foram parar na conta de empresas fantasmas ou da família Sarney.

Pelos termos assinados entre a entidade e a Petrobrás, de 2005 a 2007 deveria ter ocorrido o trabalho de digitalização dos documentos do museu e informatização de todo o sistema de acesso ao acervo colecionado pelo senador e ex-presidente da República. Na prática, porém, não há sinais de execução do projeto, segundo confirmou a reportagem na terça-feira.

Já a Sousa Premiere recebeu R$ 12 mil para oferecer, segundo a nota fiscal apresentada pela fundação, um “curso de capacitação em história da arte destinado a funcionários e estagiários do acervo museológico”. A atividade teria sido ministrada a um total de 80 pessoas, com valor de R$ 150 por aluno.

‘NÃO CONHEÇO’

O Estado esteve ontem no endereço fornecido pela empresa à Receita Federal. A Sousa Premiere tem sede na praia de Araçagi, em Paço do Lumiar, cidade distante 35 minutos de São Luís. A empresa fica em uma rua esburacada, de chão batido.

Em vez de um prédio comercial, há uma residência - a casa do dono da empresa, Adão de Jesus Sousa.

Procurado ontem, o diretor da fundação, José Carlos Sousa Silva, não soube explicar a contratação: “Não lembro todos os nomes de cabeça.” E confirmou desconhecer o proprietário da empresa. “Adão de Jesus Sousa? Não conheço.”

Vizinhos disseram que nunca ouviram falar de nenhuma ligação de Adão com cursos de história da arte. Só ressaltaram as suas ligações com a política maranhense. Nas últimas eleições, Adão, filiado ao PSDB, tentou em vão ser eleito vereador em Jatobá, no interior do Estado. Aos 29 anos, ele disse à Justiça Eleitoral ser “empresário”.

CONTRAPARTIDAS

Além do curso de “história da arte”, a Fundação José Sarney anexou à sua prestação de contas a relação de quem fez curso de “automação de acervos bibliográficos e museológicos”. A aula consta nas contrapartidas exigidas pela Petrobrás.

De acordo com a entidade, 50 profissionais, entre bibliotecários, museólogos e estudantes de biblioteconomia, fizeram o curso. A relação de participantes foi revelada pelo Estado na quinta-feira. Estão na lista uma sobrinha e uma cunhada de Sarney - Maria do Carmo Macieira e Shirley Araújo -, nomeadas para trabalhar por meio de ato secreto no Senado.

Uma funcionária do gabinete do presidente do Senado, Renata Ribeiro Costa Bezerra, também teria participado do curso, assim como Ana Maria Coelho Ferreira, lotada no gabinete de Mauro Fecury (PMDB-MA), que assumiu recentemente a vaga da governadora Roseana Sarney (PMDB) no Senado.

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