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Que é feito da CPI dos cartões?


Jarbas Passarinho
Foi ministro de Estado, governador e senador

O Marechal de França, Louis-Lyautey, dizia que certas ideias ou pessoas são comparáveis às lagostas: “Tira-se delas a carne, mas permanecem as carcaças”. É o caso do PPS, sigla do antigo PCB.

Em nota à mídia afirma que os escândalos de pagamentos ilícitos com o dinheiro público baseiam-se “no Decreto-Lei 200, da ditadura, em 1967, em que Lula se escora para exigir sejam sigilosos os gastos feitos pelos cartões corporativos da Presidência da República”. Não se livrou da carcaça.

O Decreto-Lei 200 modernizou a organização do Estado. Não tratou de despesas com cartões corporativos, então desconhecidos. Em 1967, a imprensa era livre, exceto a nanica. O escândalo viria a público fatalmente. De resto, todos os países democráticos dão tratamento secreto ao custo da segurança nacional, o que existia em 1967.

No atual governo, despesas secretas consumiram R$ 37,5 milhões. Os cartões corporativos nada têm com segurança nacional, ainda que se sustente que as peças de roupa do presidente da República, entregues para lavar, podem comprometer a segurança nacional.

Se conhecidas as características de um colete à prova de bala — diz-se — o inimigo estudará como perfurá-lo.

E se na lavanderia — peça da mordomia de um presidente — houvesse espião infiltrado, à busca de encontrar uma peça íntima do presidente manchada de batom? De que adiantaria a cautela governamental? O melhor, mesmo, é não amarrotar os ternos do famoso estilista Armani, caríssimos, com coletes balísticos, que, se usados, fariam Lula parecer um fuzileiro americano, combatendo no Iraque, desolado. Ademais, o traje também não se prestaria para cerimônias solenes ou simples, mas com a participação de presidentes, como se deu recentemente nas águas do Rio Oiapoque, fronteira do Brasil com a Guiana Francesa.

Enquanto Sarkozy trajava paletó e gravata, como burguês, Lula usava camisa de meia-manga caribenha. Teria prejudicada sua informalidade, se de colete balístico. Também não procede a necessidade de evitar que bebidas finas e destiladas, incluídas nas compras para as adegas governamentais, pudessem sugerir prova de alcoolismo a um repórter maldoso. De resto, além da maldade, essa conclusão seria uma tolice e provaria a ignorância histórica do repórter. Yeltsin não apenas bebia muito; era alcoólatra, assim reconhecido pela mídia universal. Mas de cima de um carro de combate, sóbrio ou não, abortou o golpe frustrado de 1991, que pretendeu depor Gorbachev, e antecipou o colapso da União Soviética, de que têm tanta saudade Fidel Castro, as Farc e muitos “companheiros” do Foro de São Paulo. Dele, Lula foi um olheiro apenas, decepcionando posteriormente as viúvas de Marx e os filhotes de Lênin. Nas dezenas de países que já visitou, também não teria cabimento apresentar-se encorpado no colete.

É preciso não defender o injustificável. Quem tem razão é Jefferson, não o de 1776, mas o Roberto, desbravador do mensalão: “A culpa não é dos cartões, mas dos seus portadores”. Teria a CPI enquadrado o ministro da Pesca que, no carnaval, levou um visitante estrangeiro ao sambódromo, porque numa das escolas de samba o tema era bacalhau? Exemplar chefe de família, hospedou-o num hotel de cinco estrelas, para descansar do tresnoite passado a serviço do Brasil. Ora, a CPI teria ouvido a ex-ministra da Igualdade Racial, que comprou bebidas finas estrangeiras em freeshop pagando-as com cartão corporativo, certa de que lá encontraria prova de racismo no Brasil, além de poupar o dinheiro público, sem o peso dos impostos? E haja alugado, sempre na mesma firma, dezenas e dezenas de automóveis para os seus périplos, incluindo bares e choperias, a verificar se a Lei Afonso Arinos estava descumprida? Tudo isso e muito mais já se sabia antes da instalação da CPI, graças ao jornalismo investigativo.

Mas Lula, que diz “nunca ter influenciado no Legislativo”, antecipou-se à CPI e afirmou que a então ministra não errou. Fora vítima do noticiário escandaloso. Há, porém, a CPI da Petrobras, que o ministro Múcio, da coordenação política do governo, fez de tudo para impedir. Ela até agora não foi instalada, para o que contribui a oposição. A menina dos olhos do presidente Geisel era o acordo com a Alemanha para a construção de oito usinas nucleoelétricas, já aprovado no Congresso. Matéria escandalosa da revista alemã Der Spiegel baseou o pedido de CPI pelo MDB. Foi instalada e acabou sendo útil ao Brasil. Bom era o tempo que o então presidente Collor escreveu na sua camisa de corredor matinal: “O tempo é senhor da razão”.

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