Desperdício de dinheiro no combate à fome em São Gonçalo

Caroline Durand – O Fluminense

 

Quase 70% das cozinhas comunitárias de São Gonçalo, construídas com recursos do Governo Federal para oferecer refeições a R$ 1,50 para a população carente, não estão funcionando ou operam de forma irregular na cidade. Uma delas, inaugurada com a presença da prefeita Aparecida Panisset (PDT), em dezembro, na Rua Governador Agamenon Magalhães, 323, no bairro Boa Vista, funcionou apenas por dois meses e há quatro não serve mais uma única refeição.

Ontem, O FLUMINENSE esteve no endereço e constatou que o espaço continua fechado. Em outras três cozinhas, também construídas com recursos públicos, nos bairros da Trindade, Tribobó e Jardim Catarina, boa parte das refeições que deveria ser vendida à população carente é comercializada a empresas por preços que variam entre R$ 3,50 e R$ 5, sob a alegação de servirem para subsidiar as demais, que saem por R$ 1,50.

A administração dessas cozinhas foi repassada pela Prefeitura a organizações não governamentais (ONGs), que alegam não receber recursos suficientes para mantê-las em funcionamento sem a comercialização das refeições a preços de mercado.

O subsecretário municipal de Desenvolvimento Social, Pedro Veiga, admite a prática e ainda culpa a ONG Solares Ação Social e Cidade, responsável pela coordenação do programa na cozinha do Boa Vista, pelo não funcionamento da unidade. Segundo o subsecretário, quando a Prefeitura repassou a administração da cozinha para a ONG, deixou claro que ela ficaria responsável pela compra da matéria prima (arroz, feijão, carnes e legumes), cabendo ao Executivo apenas o pagamento do salário dos funcionários, como ocorre em todas as outras unidades.

"A ONG possui estrutura e parcerias com grandes empresas, suficientes para fazer isso", garantiu Veiga, informando que apenas as cozinhas instaladas nos bairros do Salgueiro e Santa Izabel são totalmente subsidiadas pela Prefeitura.

O gerente executivo da ONG, Gleyson Rocha, por sua vez, rebate a afirmação do subsecretário e alega que nem comercializando quentinhas a preço de mercado consegue manter a cozinha comunitária em funcionamento.

"Por dois meses vendemos a quentinha por R$ 4,50 para tentar abater no gasto do mínimo de 150 refeições sociais, vendidas a R$ 1,50, que somos obrigados a oferecer. Mas não conseguimos demanda com os pratos mais caros para assegurar a produção do mínimo previsto, então, interrompemos o funcionamento da cozinha", disse, argumentando que o custo de cada prato é de R$ 2,87, contando com os gastos com gás, funcionários e alimentos usados como ingredientes.

"Para a cozinha continuar aberta, a secretaria precisaria subsidiar essa diferença, que é de R$ 1,37", afirmou.

Fiscalização - O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) informou que as cozinhas populares só podem comercializar as refeições por R$ 1,50 e que qualquer transação por valor diferente desse é considerado prática irregular. O ministério anunciou, ontem mesmo, que fará visitas monitoradas às unidades que estão comercializando as "quentinhas" em São Gonçalo, para ajustar as atividades ao que pede originalmente o programa.

De acordo com o MDS, foram repassados ao município R$ 180 mil para a reforma e compra de equipamentos para dez cozinhas, sendo que seis já foram inauguradas.

O ministério ressaltou que as refeições vendidas pelas cozinhas comunitárias devem ser destinas apenas à população carente, sem exceção.

População lamenta situação

Enquanto o problema não é resolvido, a população do bairro Boa Vista fica sem poder usufruir de uma comida de qualidade e barata, conforme foi prometido durante a inauguração da cozinha.

"A região é carente. Com certeza a procura ia ser muito grande, pois iria ser comida quase de graça. Com certeza, eu viria aqui todos os dias e deixaria de comer em casa", lamentou José dos Santos, de 56 anos.

O técnico de laboratório Reinaldo Pessoa, de 48, concorda.

"Gasto R$ 4,50 no restaurante aqui do lado para almoçar todos os dias. Seria uma economia absurda no meu orçamento. Em todo lugar tem cozinhas comunitárias com refeições baratas, aqui também deveria ter", argumentou.

"Às vezes eu como um lanche de manhã para economizar e almoçar em casa, mais tarde. Deixaria de gastar esse dinheiro, almoçaria logo e não ficaria com fome", conta o eletricista Nielsen Soares, de 39.

O vereador Ricardo Pericar (PDT) conta que desde fevereiro pede esclarecimentos sobre o funcionamento das cozinhas populares de São Gonçalo, mas até hoje não obteve resposta. Na segunda-feira, ele promete levar o caso ao Ministério Público.

"A sociedade é a mais prejudicada em toda essa história, pois fica sem utilizar um serviço que teve investimento federal", ressaltou, cobrando mais transparência ao Poder Público.

 

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