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Grampos indicam doações ''por fora'' de empreiteira

Diretores da Camargo Corrêa citam pasta de eleições com lista de todos os caras que foram pagos



Fausto Macedo e Roberto Almeida

"Tem aquela pasta de eleições", diz Pietro Bianchi.

"Ah, tá bom", responde Fernando Dias Gomes.

"E lá tem todos os caras que foram pagos", emenda Bianchi.

Grampos telefônicos da Castelo de Areia, operação integrada da Polícia Federal com a Procuradoria da República, revelam intensa movimentação da cúpula da empreiteira Camargo Corrêa em suposto esquema de doações "por fora" para políticos e legendas.

Sete partidos (PSDB, PDT, DEM, PP, PPS, PMDB e PSB) - além dos senadores Agripino Maia (DEM-RN) e Flexa Ribeiro (PSDB-PA) e deputados, entre eles José Carlos Aleluia (DEM-BA) - são citados como beneficiários de recursos que a PF supõe terem sido desviados de obras superfaturadas.

Diálogos interceptados pela Inteligência da PF revelam passo a passo como agiam os principais executivos da empreiteira, que faturou R$ 16 bilhões em 2008. As escutas fazem a PF supor que a Camargo Corrêa mantinha duas contabilidades para repasses a políticos - uma oficial e outra paralela, sem comunicação à Justiça Eleitoral.

O alvo maior da operação é um pen drive com relação de políticos que teriam recebido propinas da empreiteira. O arquivo digital foi revelado naquela conversa que a PF interceptou, entre Bianchi e Gomes, executivos da empreiteira presos na quarta-feira. Os dois falam de José Carlos Aleluia e de um suposto pagamento a ele. "Não sou candidato e não é primeira vez que bandidos falam nomes de pessoas", reagiu o deputado do DEM. "Não tenho absolutamente contato, nem oficial nem extraoficial, com a Camargo Corrêa. O governo começa a espalhar coisas para cobrir o drama que está vivendo. Não recebo doação que não seja legal."

Os grampos são o fundamento mais contundente dos decretos judiciais de prisão de quatro dirigentes da construtora - Dárcio Brunato, Pietro Francesco Giavina Bianchi, Fernando Dias Gomes e Raggi Badra - e quatro doleiros, entre eles Kurt Pickel, apontado como articulador de um esquema de remessas ilegais para paraísos fiscais e lavagem de valores.

Além de políticos e siglas, os grampos citam frequentemente a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e seu presidente, Paulo Skaf. Também é mencionado em vários contatos Luiz Henrique, diretor da Fiesp baseado em Brasília e cuja missão seria fazer a ponte da entidade com o Congresso.

Fernando Dias Gomes, segundo a PF, "se coloca em constante comunicação e contato pessoal com o doleiro Kurt". Em diálogo de 10 de outubro, Gomes fala sobre "umas contribuições". Para a PF, ele se refere a doações para campanhas políticas, indicando uma empresa do grupo como doadora de R$ 50 mil e contribuição de R$ 100 mil "para o Mendonça Filho, de Recife (candidato a prefeito em 2008)", além de citar repasse de R$ 300 mil para o PMDB do Pará, "aprovado por fora". Os investigadores dizem que esse grampo "indica a ausência de contabilização oficial de tais doações". Procurado, Mendonça Filho (DEM) afirmou em nota que as doações da Camargo Corrêa para sua campanha foram legais. O valor, segundo ele, foi de R$ 300 mil.

Em outra conversa, 21 de janeiro, Gomes afirma que Dárcio Brunato "tem um pen drive com todas as contribuições eleitorais". Um grampo indica que Bianchi também teria cópia das planilhas com nomes de políticos que podem ter recebido propinas. Relatório da PF assinala:

"Pietro diz que possui uma pasta com tais contribuições, constando duas formas de contribuições, a oficial e a ?por fora?".

Segundo a PF, diálogo de 23 de setembro entre Bianchi e um certo Marcelo "deixa claro a realização de doações por fora, irregularmente, por parte da Camargo Corrêa, a partidos políticos em campanha".

A PF destaca diálogo de 3 de julho de 2008, por meio do qual Dárcio Brunato comenta sobre um cheque destinado a campanha eleitoral e instrui seu interlocutor para que encaminhe o dinheiro a Raggi Badra,"fato que confirma as doações a políticos em campanha".

Para a PF, Bianchi "destaca-se como principal articulador" do esquema político. Em conversa gravada, ele confirma a Fernando Botelho, sócio da Camargo Corrêa e vice-presidente da Fiesp, o repasse de dinheiro a um representante da entidade, em Brasília. O dinheiro seria destinado a "PSDB e PS, 200 para um e 200 para outro".

"Fernando se mostra insatisfeito pela ausência de detalhes de tal repasse e teria sido cobrado por Paulo Skaf, presidente da Fiesp, quanto à sua não-realização", assinala a PF.

Bianchi, após ser cobrado por Botelho, questionou Brunato sobre remessa de R$ 550 mil para Brasília e sua real destinação. Brunato esclarece que o dinheiro fora repassado para a Fiesp em Brasília.
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