Tenente confirma na Câmara ter participado de torturas



Em depoimento ocorrido ontem na Comissão Especial da Lei da Anistia, o tenente José Vargas Jimenez, ex-chefe de grupo do Exército na Guerrilha do Araguaia, confirmou ter participado da prática de tortura contra presos.

José Vargas Jimenez confirmou entrevista dada à Revista Isto é, na qual afirmou possuir documentos sigilosos sobre o movimento guerrilheiro. Segundo ele, o Centro de Informações do Exército (CIEX) deu ordens, em 1975, para que documentos sobre a Guerrilha do Araguaia fossem destruídos.

“Eu estive na guerrilha e uma guerra é assim”, disse o tenente.

A comissão vai pedir os documentos que o tenente Jimenez disse possuir, mesmo depois de o Exército ter dado ordem para queimá-los.

Revanchismo - José Vargas Jimenez, que durante os episódios do Araguaia era segundo-sargento do Exército, afirmou que, naquele momento, não considerava a tortura um crime hediondo.

“Hoje em dia que eu tenho estudo, sou bacharel em Direito, sou politizado. E vejo que realmente nós fizemos muito mais”, observou o militar.

Jimenez, que lançou livro sobre o tema recentemente, considerou revanchismo as críticas de alguns ministros do Governo Lula à Lei de Anistia e às Forças Armadas.

Imprescritível - O relator da comissão, deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), afirmou que o depoente não se deu conta de que o crime de tortura é imprescritível. Segundo o parlamentar, a comissão irá encaminhar o áudio da fita ao Ministério Público Federal e pedir providências.

“Na verdade, o tenente é um fanfarrão, quer vender o livro dele. E se assume crimes, tem que responder por eles”, criticou o deputado. “Ele diz que os crimes que ele assume são prescritos, mas tortura não prescreve.”

Conforme o presidente da Comissão de Anistia, deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA), a guerrilha do Araguaia ainda é uma ferida aberta. “Nós, sociedade brasileira, precisamos continuar discutindo esse tema. Ainda bem que vivemos um processo democrático e essas informações podem vir à tona”, ressaltou.

O deputado ressaltou que é necessário continuar buscando a verdade sobre esses fatos para dar uma resposta à sociedade e aos familiares dos desaparecidos, “buscando dar oportunidade às pessoas que demandam por anistia terem acesso a ela”.
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