Que país é este, em que se rouba flagelado?

Imagens chocantes de militares e voluntários civis desviando doações em Santa Catarina levantam discussão sobre limites éticos

Desvio de donativos em Santa Catarina provoca perplexidade e indignação entre brasileiros



Flávio Freire e Maiá Menezes

O roubo de donativos destinados às vítimas das enchentes em Santa Catarina provocou indignação e também um debate sobre os reflexos da impunidade no país. O professor de Ética e Filosofia da Unicamp Roberto Romano diz que o comportamento de juízes, políticos e empresários que advogariam em causa própria incentiva no país ações como as dos soldados e voluntários que roubaram alimentos e roupas doados a quem perdeu tudo o que tinha nas enchentes.

Para Romano, quando agem a seu favor, pessoas que deveriam dar o exemplo quebram a fé pública, e provocam, com isso, o sentimento do "se ele pode, eu posso".

- Isso dá à multidão o exemplo da impunidade - disse.

Para o professor, a sociedade, mesmo em situação normal, deve contar com a violência e o egoísmo quando o assunto esbarra no comportamento humano.

- E a situação fica pior em caso de pânico, quando a norma do cotidiano e da rotina é suspensa. Aí temos a eclosão do que é mais baixo na conduta humana.

Roberto Romano lembrou o que aconteceu em Nova Orleans, pós-furacão Katrina, quando, segundo a polícia americana, foi registrada uma sucessão de estupros, assassinatos e roubos.

- A cultura ocidental tende a ser otimista com o ser humano. Acontece que não é possível perder a referência da perversidade, daí a importância da educação, da lei e do estado de direito. Todo mundo sabe que, se pegar fogo numa sala de cinema, todo mundo se atropela, não tem essa de mulheres, idosos e crianças na frente.

A professora titular de Psicologia Social da PUC de São Paulo Ana Bock diz que tem faltado ao cidadão "um choque de compromisso".

- Os vínculos sociais estão muito desgastados. É no trânsito, é num atendimento qualquer. O respeito mútuo e a fraternidade se perdem em determinadas situações. E em todos nós - disse ela, que compactua com a idéia de que o país não tem dado bons exemplos a serem seguidos:

- A tradição brasileira, desde 1500, é a de que se pode levar vantagem. Nesse sentido, as autoridades têm responsabilidade sobre a ação do cidadão, e precisariam agir com mais rigor.

"É uma vergonha", diz Zilda Arns

A presidente da Pastoral da Criança, Zilda Arns, disse ter ficado envergonhada com o que aconteceu em Santa Catarina. Para ela, quem rouba donativos não tem firmeza de caráter.

- É o tipo de gente que, se tem oportunidade, rouba. É uma vergonha - disse ela, destacando que muitos outros voluntários e soldados estão trabalhando de forma séria.

- Essa ação, que é isolada, não pode bloquear mais doações.

Coordenadora da Ação da Cidadania, Maria José Andrade também teme pela repercussão do escândalo entre quem costuma fazer doações:

- É muito triste (ver o flagrante), ainda mais depois das imagens de destruição, de perda. É uma questão de desvio de caráter. Para nós, foi algo chocante . O único medo que tenho é que isso seja usado como desculpa para a interrupção de doações. Porque o que isso desperta na cabeça de algumas pessoas é que as doações não chegam de fato a seu destino.

O coordenador de campanha e urgência da Cáritas, ligada à CNBB, Valtélio Pasa, disse que isso acontece por causa da ganância:

- Onde há seres humanos, há possibilidade de desvios, infelizmente.

Para ele, entretanto, esse fato deve despertar nas pessoas a seguinte pergunta:

- Como está a minha ética? Como está a minha posição diante do mundo?

- A gente fica horrorizado. Quando se vê um político dividindo sacos de dinheiro, de forma tranqüila, começa-se a achar natural um voluntário separar daquele conjunto o que é melhor para ele. É necessário dar um basta a isso. Quando vamos romper esse ciclo? Quando se banaliza a corrupção, se banaliza a culpa. O risco é de que se torne um comportamento epidêmico. Para onde vamos? - pergunta o historiador Marco Antônio Villa.

Mas o desvio não pode apagar as boas intenções. Na avaliação dos especialistas, o volume de doações é prova de que os brasileiros são solidários. A dificuldade maior dos voluntários flagrados pelas imagens mostradas anteontem pelo "Jornal Nacional", da TV Globo, segundo o sociólogo Ricardo Ismael, da PUC-RJ, foi de separar o caráter público do privado:

- Existe uma dificuldade, em um plano mais geral, de entender que as doações têm caráter público, ainda mais pelos exemplos recentes no país. Quando alguém por esperteza se apropria, está, além de praticando um delito, desrespeitando a vontade de quem doou e despertando suspeita sobre futuras doações.

Coordenadora de Integração de Pós-Graduação do Centro de Filosofia e Ciência Humana da UFRJ, Lilia Pougy ressalta que a punição dos militares e civis precisa ser exemplar:

- É um fato lamentável, mas isolado. O papel das Forças Armadas no apoio às vítimas é muito maior. Essas pessoas precisam ser punidas exemplarmente. Mas a ajuda é muito maior. E essa, sim, precisa ser valorizada.

COLABOROU: Chico Otavio
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