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Governo anistia 13 perseguidos pela ditadura

Na CNBB, militantes pedem abertura de arquivos militares; ex-ministro foi indenizado em R$ 99,6 mil

Comissão de Anistia julga processos de 13 pessoas, sendo 12 religiosos, perseguidos pelo regime militar, ontem na sede da CNBB


LUCAS FERRAZ
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Ministros, religiosos e militantes de direitos humanos pediram ontem a abertura dos arquivos da ditadura militar e afirmaram que a destruição desses documentos é uma prática típica de "criminosos" que destroem as "provas e os rastros" para tentar esconder os seus crimes.

As declarações foram feitas em ato realizado na sede da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), em Brasília, pela Comissão de Anistia, do Ministério da Justiça, que julgou processos de 13 pessoas sendo 12 religiosos perseguidos pelo regime militar.

A exceção foi o ex-ministro da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, anistiado e indenizado com R$ 99,6 mil (equivalente a 240 salários mínimos).

Até a conclusão desta edição, dez processos haviam sido julgados, o que somavam indenizações de mais de R$ 1,7 milhão -sem contar a pensão mensal.

Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, disse que a abertura dos arquivos está entre as prioridades do governo Lula. Vannuchi garante que ouviu do presidente frase assegurando que não passaria à história como o responsável por colocar uma pedra sobre "isso", em referência à publicidade dos arquivos.

"Ninguém está com ódio ou espírito revanchista, mas temos que conhecer a história", comentou.

Ao responder pergunta de que muitos militares (da reserva inclusive) teriam destruído documentos do período, ele diz que isso mostrava a "lógica" de um criminoso.

"Muitos criminosos que atuaram nos aparelhos de repressão estão queimando esses arquivos para acabar com as provas e os rastros", disse.

O secretário-executivo do Ministério da Justiça, Luiz Paulo Barreto, que ocupa interinamente a pasta, também defendeu a abertura. Ele assegurou que em "breve" o governo terá novidades sobre o assunto, que é coordenado pela ministra Dilma Roussef (Casa Civil).

O ato ontem ficou marcado ainda pela defesa dos presentes de que a Justiça brasileira responsabilize quem torturou ou matou durante o regime militar. A Igreja Católica se manifestou de forma contundente.

"Perdão não é sinônimo de impunidade", disse o presidente da CNBB, dom Geraldo Lyrio Rocha. "Os culpados [pela tortura], se identificados, devem ser punidos."

Pastor diz que teve "sorte" ao resistir à tortura

O reverendo norte-americano Frederick Birten Morris, 74, foi um dos anistiados presentes na sessão de ontem da Comissão de Anistia, na sede da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil). Conhecido como pastor Fred, foi preso em Recife em setembro de 1974, durante a ditadura militar.

Morris, que representava a Igreja Metodista no Brasil naquela época, afirmou que nunca integrou nenhuma organização, mas disse que ajudava jovens de vários grupos esquerdistas.

"Fui seqüestrado, quando saía de casa, por 12 homens armados. Estou vivo por sorte", falou o reverendo, indenizado com R$ 285 mil, mais o direito da pensão vitalícia no valor de R$ 2.000. Ele disse que foi torturado com pancadas e choques elétricos por quatro dias seguidos.

Após a prisão, que durou 17 dias, Morris foi expulso do Brasil por decreto do então presidente Ernesto Geisel, que só foi revogado em 1988.
(LF)

Colaborou a FOLHA ONLINE

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