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João Cândido do Brasil

Paulo Paim

Confesso que a minha garganta secou e as minhas mãos suaram no exato momento em que os senadores aprovaram o projeto de lei da Marina Silva que concede anistia post mortem para o marinheiro João Cândido Felisberto e aos demais participantes da Revolta da Chibata.

Foi como se o plenário se transformasse no convés do encouraçado Minas Gerais, que nos idos de 1910 serviu de palco, na Baía de Guanabara, para o levante dos marinheiros que não aceitavam mais os açoites e as humilhações.

Incrível como a jovem República brasileira ainda permitia que a Marinha de Guerra utilizasse tais castigos. Os marinheiros que cometiam faltas leves eram presos na solitária por cinco dias, recebendo apenas pão e água. Já as faltas graves eram punidas com no mínimo 25 chicotadas.

A revolta estourou quando o marinheiro Marcelino Rodrigues foi castigado com 250 chibatadas.

Coube então a um gaúcho nascido em Encruzilhada do Sul o comando do movimento.

Uma carta reivindicando o fim dos castigos físicos, melhorias na alimentação e anistia para todos os marinheiros que participaram da revolta foi redigida pelo negro João Cândido. O governo aceitou as exigências, mas, findado o levante, os marinheiros foram presos e muitos assassinados.

O líder João Cândido, que já vinha sendo chamado pela imprensa de Almirante Negro, foi expulso da Marinha e internado como louco no Hospital de Alienados, sendo solto dois anos depois.

Morreu na miséria, em 1969, no Rio de Janeiro, aos 89 anos.

João Cândido e seus companheiros lutaram pela dignidade de suas vidas e foram vítimas de uma feroz perseguição. Aos poucos, a nossa história está fazendo justiça e nós outros devemos bater no peito e falar com orgulho que ele também é um herói brasileiro.

Creio que se ele estivesse hoje entre nós seria um militante das causas sociais. Seria aquele tipo de brasileiro que não se conforma ao ver uma criança dormindo na rua ou um idoso tendo que esperar mais de cinco horas para ser atendido num hospital.

Foi na década de 70 que os compositores João Bosco e Aldir Blanc eternizaram João Cândido Felisberto na canção O Mestre-Sala dos Mares: Salve o almirante negro que tem por monumento as pedras pisadas do cais.

Agora ele não é mais tão-somente das "pedras pisadas do cais". Ele é o João Cândido dos negros, brancos, índios, das pessoas com deficiência, dos desempregados e de todos os discriminados.

Agora ele é eternamente o João Cândido do Brasil.

*Senador (PT-RS)
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