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PF prende 10 e aponta desvio em empréstimos do BNDES

Dinheiro seria obtido por meio de influência política e lavado em prostíbulo

Um dos presos é o advogado Ricardo Tosto, que integra Conselho de Administração do banco público como indicado pela Força Sindical




MARIO CESAR CARVALHO
DA REPORTAGEM LOCAL

A Polícia Federal prendeu ontem dez pessoas sob a acusação de integrarem uma quadrilha que desviava parte dos empréstimos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) a prefeituras e empresas privadas. Os empréstimos, segundo a PF, eram obtidos por meio de influência política.

O dinheiro desviado era lavado num prostíbulo e num restaurante que funcionam num flat no bairro da Bela Vista, na região central de São Paulo. Lavagem é o processo pelo qual o dinheiro de origem ilícita volta a circular de maneira legal. O dinheiro desviado aparecia como investimento dos sócios no flat. Os três sócios foram presos ontem pela PF. Eles são donos de uma construtora que faz obras para prefeituras.

O mais conhecido dos presos é o advogado Ricardo Tosto, que defendeu o deputado Paulo Maluf (PP-SP). Tosto faz parte do Conselho de Administração do BNDES como representante da Força Sindical e é acusado de usar o cargo para influenciar a liberação de empréstimos.

Os presos são acusados de desviar da finalidade prevista em contrato recursos de financiamento oficial. Esse crime, previsto no artigo 20 da lei de crimes contra o sistema financeiro, é punido com prisão de dois a seis anos e multa.

Um dos possíveis investigados num desdobramento das prisões de ontem é o deputado federal Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), segundo a Folha apurou. A PF encontrou indícios de que ele participava do lobby político para liberar os empréstimos. Ontem às 20h, o deputado disse que estava num avião prestes a decolar e que não poderia fazer comentários.

Os prefeitos das cidades que receberam os recursos também devem ser investigados. A PF não incluiu o nome dos políticos no inquérito porque eles têm foro privilegiado, o que poderia postergar a apuração, na avaliação dos policiais. Oficialmente, a PF não divulgou o nome de nenhum investigado, nem das prefeituras ou empresas sob suspeita.

A Folha apurou que a prefeitura sob investigação é a de Praia Grande, no litoral paulista. Ela conseguiu um empréstimo de R$ 120 milhões no BNDES. O prefeito de Praia Grande é o advogado e empreiteiro Alberto Mourão (PSDB). Um dos presos é o engenheiro Boris Timoner, diretor de expansão das Lojas Marisa. O BNDES fez um empréstimo de R$ 220 milhões para a empresa. Em nota, as Lojas Marisa dizem que Timoner só prestava serviços para a empresa.

O delegado Rodrigo Levin, que comanda a investigação, frisou que os sócios da Marisa não participaram dos desvios. A PF afirma ter provas materiais de que de 3% a 4% desses dois empréstimos foram desviados. Ou seja, o grupo teria ficado com R$ 10,5 milhões quando se trabalha com a hipótese de que o desvio era de 3%.

A suposta quadrilha criou um esquema engenhoso para desviar recursos. O percentual de 3% a 4% era pago a uma empresa que fazia o projeto que o BNDES exige para empréstimos como se fosse uma remuneração legal pelos serviços prestados. Essa empresa era fantasma, segundo o delegado.

As investigações da chamada Operação Santa Tereza começaram em 2007. O nome é uma alusão ao bairro Santa Terezinha, de Praia Grande, onde mora o primeiro dos investigados. Escutas telefônicas mostraram que o flat era usado para prostituição e tráfico internacional de mulheres, de acordo com a PF. No prostíbulo, um programa custa até R$ 600.

Numa conversa telefônica, um dos sócios do flat mencionou que gostaria de trazer para o prostíbulo uma equipe de uma prefeitura para discutir um empréstimo do BNDES. Foi aí que a PF decidiu focar a investigação nos empréstimos.

Ontem, os policiais fizeram buscas e apreensões em 18 locais, entre os quais o escritório Leite, Tosto e Barros Advogados, num prédio sofisticado do Itaim Bibi, na zona oeste. Foram apreendidos veículos e valores que ultrapassam R$ 1 milhão, de acordo com a PF.

Um dos sócios do flat tinha em casa US$ 220 mil (R$ 367 mil).

Colaborou LUIS KAWAGUTI , da Reportagem Local
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