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Guerrilha controlava jazida que hoje é de propriedade da Vale

Objetivo era financiar criação de Estado independente

Vasconcelo Quadros
São Domingos do Araguaia, PA

A ditadura militar não impôs, apenas, uma derrota militar ao PCdoB ao sufocar a guerrilha e exterminar seus 59 combatentes, abandonando seus restos mortais nas matas do Araguaia entre 1972 e 1975. Passados 33 anos do fim do conflito, personagens que estiveram no epicentro da Guerrilha do Araguaia, revelam que a estratégia de longo prazo traçada pelos comandantes comunistas para sustentar o território independente que pretendiam criar, contaria com as minas de ouro, diamante, cristais e o manganês do subsolo das serras da confluência entre Pará, Tocantins e Maranhão.

A figura em torno da qual gravitavam as esperanças era o guerrilheiro Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, o comandante negro de mais de dois metros de altura, que tombou em 1974 depois de percorrer e esquadrinhar, durante mais de dez anos, toda a região onde a guerrilha foi organizada e depois varrida pelos militares. Com formação militar, engenheiro metalúrgico e de minas, era de longe, o mais preparado do grupo. Osvaldão, inclusive, seria dono de uma empresa que explorava minério onde hoje está a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), à época estatal.

– O Osvaldão era dono de uma mineradora. Ele falava que, com um metro cúbico de dinheiro, compraria o Pará – lembra o ex-guia do Exército João Pereira da Silva, que trabalhou ao lado do guerrilheiro no garimpo de diamantes de Itamirim, antiga localidade de São João do Araguaia, atualmente município de Brejo Grande.

Informante na ativa

Até hoje, o ex-guia ainda é informante do coronel da reserva Sebastião Curió Rodrigues de Moura, o prefeito de Curionópolis (PA). Pereira vigia a entrada e saída de estranhos no antigo porto de Apinagés, nas margens do Rio Araguaia, a 13 quilômetros da cidade de São Domingos do Araguaia. A 300 metros da casa onde mora, em uma área ainda inóspita, localiza-se um cemitério que, segundo as suspeitas, abrigaria restos de guerrilheiros. O ex-guia era amigo de Osvaldão desde 1964. Quando, ao lado dele, escavou cascalho no garimpo de Itamirim e mais tarde na localidade de Tabocão, em Palestina do Pará, atrás de cristais, nada sabia sobre a guerrilha.

Em 1971, um ano antes do ataque aos militantes do PCdoB, foi recrutado por dois tenentes, Lima e Régis, que o colocaram a par do plano subversivo e deram a ele um ultimato.

– Eles foram bem claros: ou tu fica do nosso lado ou desaparece – jura Pereira.

Caçador, garimpeiro, comerciante de peles e castanha como Osvaldão, Pereira não só aceitou, como se transformaria num dos mateiros de confiança de todos os militares. O último deles foi Curió. Conhecia profundamente a região e havia convivido com o comando da guerrilha o suficiente para dar aos militares a dimensão da ousadia do plano comunista. Os relatórios produzidos pelos serviços de informação transcrevem a observação segundo a qual "Osvaldão se apresentava como governador do Pará".

Domínio territorial

As informações mais importantes sobre o fracassado plano de sustentação econômica da guerrilha deverão ser conhecidas em declarações e documentos que Curió vai revelar brevemente, no livro sobre a guerrilha que terá sua versão como fio condutor da história. Ele confirma, no entanto, que a exploração dos recursos minerais da região fazia parte da estratégia de longo prazo do PCdoB.

– Eles queriam o domínio do território todo – diz o prefeito.

A área que os guerrilheiros do PCdoB queriam dominar vem a ser, exatamente, o pedaço que engloba o Sul e Sudeste do Pará, nas bacias do Xingu, Araguaia e Tocantins. Políticos da região querem emancipa-la com o nome de Estado do Carajás numa provável redivisão da Amazônia, em 2010. No local, concentram-se as principais reservas minerais da então estatal Companhia Vale do Rio Doce, que acabou privatizada nos anos 1990.

O ex-coronel Sebastião Curió diz que a opção militar pela eliminação dos guerrilheiros impediu que a região do Bico do Papagaio se transformasse numa zona sob o controle da guerrilha, como fazem hoje as Forças Armadas da Colômbia (Farc) no país vizinho.

Ao derrotar o PCdoB numa ação que acabou se transformando em caçada aos guerrilheiros, Curió conquistou, também, o papel de protagonista do processo de transferência de concessões de exploração dos recursos minerais de toda a região controlada pela então estatal. Mineração era, na época, assunto de segurança nacional, sob a responsabilidade do homem que derrotara a ameaça guerrilheira. De seu QG em Serra Pelada e mais tarde na cidade por ele criada, deu todos os palpites sobre exploração de minério, assunto sobre o qual até hoje é consultado.

A guerrilha estabeleceu seus destacamentos nas cercanias da Serra das Andorinhas, mas sabia do potencial mineral da região dos Carajás. Um dos textos produzidos pelos dirigentes comunistas, apreendido com os guerrilheiros mortos, descreve as "ricas jazidas da Serra Norte" – como era chamada por eles a Serra dos Carajás – e antes da eclosão do conflito, criticava a concessão "criminosa" de um enorme pedaço de terra próximo a Marabá ao grupo americano Steel S/A, mais tarde incorporado pela Vale do Rio Doce. Antes da guerrilha, as concessões de lavra haviam passado por outros três grupos, a Empresa de Mineração Xingu Ltda, a Meridional e a Amazônia Mineração S/A (Amsa), também incorporadas pela Vale.

Participação

Se formalmente Osvaldão tinha participação em alguma empresa de mineração, documentos ou informações ficaram em poder dos militares. O guia Pereira era personagem secundário na estratégia militar. Mas lembra que o interesse de Osvaldão e da geóloga Dinalva Conceição Teixeira, a Dina, a mais famosa das mulheres que pegaram em armas no Araguaia, era segredo de polichinelo entre os moradores que conviveram com os guerrilheiros e depois – voluntários ou recrutados à força – se tornaram bate-paus dos militares.

Pereira tem, na ponta da língua, número e data do decreto de concessão de lavra que, segundo afirma, pertenceu a Osvaldão.

– É o 74.509 e estava registrado no 5º distrito do DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral) em Belém desde 1969 em nome da Xingu. A concessão era do Osvaldão e da Dina. Acho que os papéis sobre a empresa ficaram com os militares – afirma o guia.

Além do disfarce

Entre os moradores da região que atuaram como garimpeiros antes da guerrilha, não há dúvidas de que a atividade de mineração ia além de um mero disfarce ao plano político.

– Trabalhei para o Osvaldão no Garimpo de Matrinchã. Ele vendia os cristais em Araguatins e eu ficava com a metade do valor – conta ao JB o ex-guia Abel Honorato de Jesus.

Em dois depoimentos, um ao Ministério Público Federal, em 2005, e o mais recente no último dia 25 de abril aos membros da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, em São Domingos do Araguaia, Abelinho, como é conhecido, também fala da parceria com o guerrilheiro. Diz que ele e outros dois homens, um deles conhecido como Zé Alemão, trabalharam para Osvaldão por cerca de seis meses em 1970. Preso dois anos depois, apanhou dos militares e virou mateiro do Exército por conhecer a região e outros guerrilheiros.

– Os militares achavam que eu era compadre do Osvaldão, mas não era – afirma.

A preocupação da guerriha com o potencial mineral da região aparece em outros documentos do PCdoB, entre eles um roteiro com as propostas do partido para o Araguaia.

– A existência do minério era do nosso conhecimento. O ouro e o diamante seriam a base de sustentação do movimento. Mas isso nem chegou a ser colocado em prática. Fomos atacados antes – afirma o ex-guerrilheiro Micheas Almeida, o Zezinho do Araguaia, militante do PCdoB desde 1962.

Zezinho escapou do cerco militar no final de 1974 e, como mateiro experiente, retirou do Araguaia o dirigente Ângelo Arroyo – morto em São Paulo em 1976 no episódio que ficou conhecido como a Chacina da Lapa. A operação teve a participação de Curió.
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