Reitor afasta-se e alunos da UnB querem saída do vice

Decisão foi comemorada por estudantes e professores. Problema persiste



Norma Moura
Brasília

Após uma semana de ocupação e protestos dos estudantes da Universidade de Brasília (UnB), o reitor Timothy Mulholland decidiu licenciar-se do cargo de reitor por 60 dias. Com isso, antecipou-se aos professores que, em assembléia geral, pretendiam votar o seu afastamento.

Segundo o comunicado do reitor, a decisão foi tomada para assegurar os princípios constitucionais da administração pública e garantir transparência na apuração das denúncias que o Ministério Público do Distrito Federal (MPDF) e o Ministério Público Federal vêm fazendo contra ele. Em seu lugar assume o vice-reitor Edgar Mamiya, contra quem também recaem suspeitas de irregularidades envolvendo as fundações de apoio ligadas à UnB. O afastamento foi comunicado ao Ministério da Educação.

Apesar da interrupção da assembléia por cinco minutos, por causa das comemorações pelo afastamento, a notícia não deixou totalmente satisfeita a comunidade acadêmica. Professores que, desde o início, apoiam o movimento dos estudantes reclamavam que não basta afastar o reitor; eles querem também a saída do vice. Do lado dos estudantes, o anúncio também era visto com comedimento.

Presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Fábio Félix disse que o gesto não interrompe o movimento.

– Ainda não é o suficiente. Ainda precisam sair o vice e o resto da diretoria. A manifestação continua - garantiu .

Discursos inflamados

A assembléia prometia clima tenso, por causa da dimensão dos temas da pauta. Teve até pressão parlamentar. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) foi à UnB defender, também em nome do colega Cristovam Buarque (PDT-DF), o afastamento do reitor até o fim das investigações.

Os professores que lotaram o anfiteatro 9 aproveitaram o tempo antes da votação para extravasar. De microfone na mão, a maioria criticou a gestão do reitor e acusou colegas de terem se calado diante das denúncias que há dois meses abalam a credibilidade da reitoria e da universidade.

Vários professores aproveitaram para defender publicamente o voto paritário entre docentes, alunos e servidores administrativos.

Na opinião da estudante de Enfermagem Elaine Barros, 18 anos, o reitor já sai tarde.

– Na verdade, poucos professores se mostraram até agora. Parece até que são contra os alunos - protestou.

Opinião partilhada pelo professor Francisco Pinheiro, do Departamento de Comunicação, que chamou atenção para a perda de credibilidade que estaria afetando toda a comunidade acadêmica desde o início da crise na UnB.

– O reitor está sendo ridicularizado por todas as pessoas sérias desse país - acusou o professor, revelando que o site de buscas Google tem milhares de entradas relacionadas às palavras UnB, corrupção e Timothy Mulholland.

Recitando trecho de um desafio do repentista Cego Aderaldo, o professor Pinheiro continuou.

– O reitor cuspiu na cara da universidade e da moralidade - acusou.

Para a vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) do DF, Cláudia Maya, o afastamento do reitor mostra a força dos estudantes.

– Essa vitória, ainda que parcial, mostra a força do movimento que estamos fazendo - ponderou - É importante que a mobilização sirva para rediscutir as bases da reforma da universidade.
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