Cartões para serventes e motoboys

Levantamento mostra que funcionários sem cargo de gestor faziam compras e saques na conta do governo

Maria Clara Prates, Alana Rizzo e Alessandra Mello

A análise da movimentação financeira com os cartões de crédito corporativos do governo federal, de acordo com o Sistema de Administração Financeira da Secretaria do Tesouro Nacional (Consiafi), revela que serventes de limpeza, motoristas e sindicalistas estão autorizados a fazer saques na rede bancária e faturar compras. Na Universidade Federal de Uberlândia, em 2007, um grupo de 10 servidores, a maioria sem função de gestor, foi responsável por gastos de mais de R$ 175 mil. O maior sacador foi o motoboy da reitoria, Paulo Sérgio Duarte de Freitas. Ele movimentou R$ 46, 7 mil em um ano, além de fazer compras diversas em papelarias, casas de revelação de fotos e lojas especializadas em produtos para animais.

O levantamento no Consiafi demonstra ainda a existência de pelo menos 8,3 mil cartões corporativos, que consumiram o total de R$ 75,3 milhões no ano passado. Desse valor, R$ 57, 3 milhões foram sacados em dinheiro. O Estado de Minas analisou a movimentação, com os valores discriminados dos saques e das faturas de cada um. Ao contrário das compras com nota fiscal, rastrear os valores movimentados em espécie é praticamente impossível.

Ontem, a Controladoria Geral da União (CGU) informou que 7.145 pessoas são portadores do cartão. A diferença pode ser explicada porque unidades gestoras da Presidência e 30 órgãos do Executivo e Judiciário podem ter mais de um servidor para a movimentações financeiras, sendo que alguns cartões estão registrados em nome do setor. Um exemplo é a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). O órgão não registra o nome do servidor responsável pelos saques, que chegaram a R$ 29,1 mil em 2007.

Na Universidade Federal de Uberlândia, o Fundo de Suprimentos foi movimentado por 10 servidores. Além de Paulo Sérgio, as serventes de limpeza Terezinha Maria dos Santos e Marlene Graça Silva receberam cartões e sacaram R$ 15,5 mil e R$ 2,7 mil, respectivamente. As duas confirmam ter usado o cartão de plástico do governo. Segundo elas, as retiradas e os valores sacados eram determinados pelo seus superiores e seriam destinados ao pagamento de diárias aos motoristas.

Campeão

Considerando as movimentações financeiras, o campeão é o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, que gastou R$ 34,5 milhões com o cartão, sendo que mais de 92%, ou seja, R$ 31,8 milhões, foram sacados em espécie. Dentro da estrutura do ministério, a maior gastança foi promovida pelo IBGE, com saques que superaram a casa dos R$ 100 mil, como o servidor Valter Nichio Bertoni, da unidade de Rondônia, que consumiu, em espécie, R$ 121,2 mil. Para a fatura, as compras foram de modestos R$ 986,99, durante todo o ano.

Valter não está sozinho. Seu colega José Vitor Neves Guimar, coordenador da agência do instituto em Barra do Piraí (RJ), uma cidade com pouco mais de 93,2 mil habitantes, sacou R$ 115,3 mil e faturou R$ 296,60, em compras. A técnica judiciária Noeme de Castro Chaves, da subseção de Santarém (PA), retirou R$ 89 mil em espécie, sendo superada por sua colega Miriam Motta Correa Pinto, que sacou R$ 94,2 mil em dinheiro.

O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, disse ontem em Brasília que os saques em dinheiro de funcionários do IBGE se explicam pela necessidade de pagar despesas dos agentes do Censo. Ele lembra que boa parte dos pesquisadores trabalha em áreas isoladas e não tem como pagar suas despesas de transporte e alimentação a não ser com dinheiro.

Mas nem todo o governo é gastador. O Ministério do Turismo, por exemplo, em todo o ano passado, fez saques de apenas R$ 2,1 mil e compras faturadas no valor total de R$ 1,7 mil. Também o Ministério das Relações Exteriores se mostrou econômico. Fez retiradas no cartão de R$ 1 mil e compras no total de R$ 3,2 mil.

Gastos com motoristas

As serventes de limpeza da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Terezinha Maria dos Santos e Marlene das Graças Silva nunca tinham ouvido falar em “cartão corporativo”. As duas também desconheciam a polêmica envolvendo o dinheiro de plástico e as despesas de ministros como Matilde Ribeiro, da Igualdade Racial, que ocupou o noticiário nos últimos dias. Mas as duas juntas gastaram, em 2007, mais de R$ 18 mil com o cartão corporativo. “Não sei do que você está falando”, diz Terezinha, quando questionada sobre o débito de R$ 15,5 mil no cartão registrado no número do seu CPF. “Ah! Eu tenho um cartão do Banco do Brasil que uso para fazer saques para a universidade sim. Há um ano administro ele. Levo uma requisição de quanto preciso pegar no caixa e entrego o dinheiro para o meu chefe. Ele é quem distribui para os motoristas”, comenta a servente.

Apesar de na carteira ser contratada como auxiliar de serviços gerais, Terezinha conta que está trabalhando “na parte do escritório” da garagem. “Estou de férias e por isso o cartão não está comigo.

Mas nunca usei para nada além dos saques que o chefe requisita”, diz. A funcionária mora em uma casa simples com a família na periferia de Uberlândia. Já Marlene se aposentou este ano. “Faz uns seis meses que saí de lá”, diz. Ela também demorou a lembrar do cartão que administrava. “Pegava o dinheiro e entregava para o chefe. Era para pagar diária de motoristas”, explica a ex-funcionária, que ficava com o cartão.

O gerente da garagem a que elas se referem é Carlos Humberto Correia, também portador de um cartão corporativo. No ano passado, ele gastou R$ 27 mil. O fundo de transportes da UFU também é administrado pelo motoboy Paulo Sérgio Duarte de Freitas. No cartão dele constam mais de R$ 46,7 mil em saques e R$ 264 de despesas em estabelecimentos comercias da cidade. De acordo com familiares, Paulo tem uma moto e presta serviços diversos para a reitoria da universidade. Ele sofreu um derrame e não poderia atender a reportagem. Teve alta hospitalar esta semana.

Assistentes

Os cartões da UFU estão concentrados nas mãos de 10 servidores. Eles movimentaram em 2007 recursos do fundo de suprimentos da universidade em valores superiores a R$ 175 mil. Grande parte dos funcionários não tem formação de nível superior e nem ocupa cargos de gerência. Além das duas serventes, estão na lista dos cartões o técnico em eletromecânica Claudinei Teixeira de Moura, o professor de engenharia civil Laerte Bernardes Arrudas, o coordenador da diretoria financeira Mário César da Costa, a assistente administrativa Rita de Cássia Lima e o motorista Ailton José Ferreira.

O pró-reitor de planejamento e administração da UFU, José Antônio Galo, confirma que todos são gestores dos cartões corporativos. Segundo ele, os cartões não ficam apenas nas mãos dos gerentes porque se algum sair de férias não há como sacar dinheiro ou movimentar. Diz que não existem mais serventes de limpeza nos quadros da universidade e sim “assistentes administrativos”. Com relação às faturas em papelaria, lojas de foto e de produtos animais, Galo alega que são despesas pequenas e urgentes. O Ministério da Educação (MEC) informou que as universidades federais têm autonomia para indicar os portadores dos cartões corporativos. (AR, AM, e MP)
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