A autocensura das esquerdas


Jarbas Passarinho
Foi ministro de Estado, governador e senador
Nos idos de 1960, um panfleto do Partido Comunista continha mais de uma dezena de lições de capacitação política. Numa, fazia a apologia do socialismo científico, de Marx, contra os socialistas utópicos que levavam em conta a luta de classes, e os “socialistas de direita”, Bernstein entre eles, adeptos da teoria reformista, que em nome da paz social “atrasava a revolução socialista”. Noutra, ensinava que o socialismo marxista, depois da destruição do capitalismo, mudava em comunismo. O socialismo, pois, seria uma fase intermediária para o comunismo.
No entanto, ao escrever, de parceria com Engels, o Manifesto de 1848, deu-lhe Marx o título de Manifesto Comunista, gerando grandes adversários: a Igreja Católica, transcendentalista, e a burguesia, “origem da propriedade privada e de todos os males”. O comunismo, “o ópio dos intelectuais” de que tratou Raymond Aron, ainda mesmo hoje, apesar de parte da Igreja ter mudado, é uma palavra que os esquerdistas evitam, exceto o autêntico PC do B. Dizem-se socialistas. Um comunista simplório pretendeu implantar um glossário de “comunicação correta”, em que proibia o uso de palavras malditas, comunismo entre elas. O glossário não resistiu porque já tem um sucedâneo fortíssimo: a auto-censura nos órgãos de comunicação social burgueses.
As Farc não são guerrilheiros comunistas, mas “guerrilha de esquerda”. Depois da espetacular “operação humanitária” de libertação de duas seqüestradas, o caudilho Chávez propôs ao mundo que das Farc se retire o labéu de terroristas, passando a ser “uma força política insurgente”. As conseqüências levariam as Farc a ter tratamento de Estado legítimo, fornecer passaportes e até instalar embaixadas no exterior. Não é o caso, porém, de movimentos terroristas, animalescos, atentados brutais imprevisíveis, contra pessoa ou coletividade, provocando inevitavelmente a morte de inocentes.
Che Guevara, em seu manual de guerrilha, repudiou o terrorismo, argumentado que impedia o apoio popular, sem o qual nenhuma guerrilha vence. Em outro manual, este de Carlos Marighella, o terrorismo é considerado atividade normal de luta. A AP, de esquerdistas católicos, seguiu a teoria guerrilheira de Marighella. Um dos seus militantes abalou Recife, detonando, em março de 1966, cinco bombas. O terrorista era da AP, revela Jacob Gorender, fundador do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, em seu livro Combate nas trevas. A mais grave das bombas explodiu no aeroporto de Guararapes, causando mortes, mutilações e ferimentos graves de civis inocentes e desarmados.
Posteriormente, no VPR, morto em combate, os parentes do terrorista receberam polpuda indenização em dinheiro e ele ganhou nome de rua em Belo Horizonte. Entretanto, em 1966 o governo Castello Branco assegurava as liberdades fundamentais, a imprensa era livre, o Judiciário e o Legislativo respeitados. O AI-5 não foi editado senão mais de dois anos depois, para conter e vencer as guerrilhas urbanas. O insuspeito Millor Fernandes cunhou uma frase sobre os guerrilheiros e as indenizações, ironizando-os “porque o que fizeram foi rendoso investimento”.
Se vier a ser bem-sucedido o “intercâmbio humanitário”, 43 seqüestrados serão trocados por 750 guerrilheiros prisioneiros. Mas esses acabam de publicar uma nota. “Não somos moeda de troca.
Lutamos por um ideal e não para seqüestrar não combatentes”. Acham que devem ser libertados.
Compreendem que o seqüestro ofende “a honra da causa pela qual lutamos e fomos presos”. Lutaram e foram capturados em combate. Quase venceram, financiados pelo comunismo internacional, o velho “Socorro Vermelho”, mas, faltos dele, pelo colapso do “socialismo real”.
Agora as Farc coletam recursos do narcotráfico e dos seqüestros pela soma de resgates. Uma testemunha ocular disse que os seqüestrados de motivação econômica são, sem exceção, sentenciados à morte, depois de pagos os resgates, normalmente de burgueses abastados. Um dono de sapataria pagou US$ 250 mil, esperando resgatar o filho. Informado por um desertor da guerrilha, achou a fossa onde estava o cadáver do filho.
Aos seqüestrados políticos, trata a mídia de reféns, como se aprisionados em combate. São moeda de troca, quando sobrevivem. Vivem acorrentados a árvores ou uns aos outros, até para dormir.
Lula teve a hombridade de dizer que “o seqüestro é ignóbil”. Os soldados e policiais presos são acorrentados até o pescoço. É o testemunho da sra. Clara Rojas, presa com a senadora Ingrid Betancourt na campanha para presidente da Colômbia, e da ex-deputada Consuelo González, que foram libertadas. Trouxeram cartas de outros seqüestrados. São relatos de tratamento hediondo. Deve ser neles que o caudilho venezuelano se baseia para, arrogante, exigir que a guerrilha comunista seja considerada uma “força insurgente”. Não ouviu os guerrilheiros mantidos nas prisões colombianas que, por sua nota publicada, sugerem a razão do enfraquecimento considerável das Farc, que 93% dos colombianos condenam agora.
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